A arrumação da frase no subtítulo, já implica e supõe uma hipótese: a de que não somos suficientemente livres, a ponto de conseguir ficar imune e não sujeito a tudo o que aconteça a nossa volta. Não se tem como escapar dessa sina, mesmo que queiramos muito e lutemos por isso. Porque somos parte de um “melting pot” cultural, racial, político, econômico, ideológico, filosófico e outros, e que por conta disso tudo estamos imersos num oceano cultural. Quando falamos do Brasil da segunda metade da década de sessenta e começo dos setenta, não se pode deixar de falar na terrível experiência, que foi viver o período da ditadura militar, e que teve como consequência: "a perda da liberdade" de forma efetiva e real. Viver a experiência da perda de direitos políticos e de cidadania, como a privação do direito de organização, por exemplo, proporcionados por regimes políticos de exceção, regimes fora da lei, como foi o caso da ditadura militar brasileira daquele período, já é mais do que suficiente para deixar marcas indeléveis, marcas que ficarão por muito tempo, talvez para sempre e de forma definitiva, pelo menos enquanto vivermos. E marcas, que atingiram não apenas, aqueles que sofreram as sanções criminais, e em consequência torturas na prisão. Desses nem se fala, porque não se trata apenas de marcas, e sim de sequelas muito mais graves e severas. Não pretendo tratar agora da questão do preso político, pois esse não é o foco, que se quer abordar no presente texto, nem é a marca do torturado, que quero discutir. Quero trazer para a discussão, o problema das marcas que condicionaram e influenciaram a vida de determinada geração de brasileiros de forma definitiva, influindo nas escolhas, que acabaram por determinar o rumo a seguir na vida e todo o futuro. No caso brasileiro, a perda da liberdade, ocorrida pelos atos que levaram a perda das garantias legais asseguradas pela constituição de 1946, já coloca de imediato a questão da liberdade na linha do horizonte de toda uma geração. Porque se configura como a presença de algo ausente, de tão escandalosamente ausente, que acaba por se fazer manifestar. Por estarmos privados de tantos direitos civis, antes amparados pela Carta Magna, agora a liberdade se impunha a todos nós, e o que é hilário, mesmo à revelia dos quartéis. Têm-se, portanto a demanda e a presença da liberdade, em sonhos, anseios, corações, idéias, enfim, a liberdade está presente nos corações e mentes de várias formas, dimensões e perspectivas. Esse é um aspecto da presença da liberdade nas mentes de toda uma geração num determinado período do tempo, no daquele período terrível foi essa experiência específica e cheia de especificidades de uma ditadura. E para concluir essa primeira parte, que trata da chegada da liberdade através da esfera da violência imposta, e violência pela opressão de um determinado regime político, e que se caracteriza pela relação entre liberdade e violência. Agora passemos a outro aspecto da questão da presença da liberdade nos corações e mentes daquela mesma geração, no caso não mais pelo prisma da experiência da violência imposta mencionada acima. Agora a motivação, tem outra vertente e origem. Trata-se da questão cultural dominante, ou melhor, da superestrutura ideológica, para usar uma expressão da metáfora marxista. E depois de passados esses anos todos, e quanto mais o tempo passa, mais se têm o privilégio de poder olhar todo aquele período com algum distanciamento, o que facilita bastante, possibilita inclusive poder enxergar melhor e ampliar a compreensão de porque aquilo tudo se deu, e de como se deu. Como é sabido, aqueles anos fizeram parte de um período da história do mundo, considerado muito conturbado para os conservadores, e para onde convergiram ao mesmo tempo várias demandas, que estavam reprimidas há muito tempo. Era a questão da repressão sexual, da liberação dos costumes, do preconceito contra os homossexuais, da opressão contra a mulher, o chamado sexo frágil, do problema racial contra os afro-descendentes, e da luta pelo boicote ao serviço militar, ambos nos EUA, que provocou várias deserções, inclusive de celebridades, para fugir da obrigação de ter que arriscar a vida na guerra do Vietnam. Enfim, problemas que se transformaram em lutas reivindicantes, que buscavam ampliar os direitos civis para minorias. Portanto mais uma vez encontramos a noção de liberdade na linha de frente da luta política, e como uma das principais bandeiras, dessa vez por outras razões e motivos, diferente daquilo, que se fazia internamente, na luta contra a ditadura militar. Porque nesse caso, a liberdade não se impõe mais apenas pela violência, como aconteceu durante a ditadura, agora a liberdade se impõe, chega até as mentes, pelo condicionamento ideológico através do caldo cultural dominante da época. Repetindo, apenas para reforçar, num momento, através da esfera de experiência da política interna em âmbito nacional, a liberdade entra na linha do horizonte determinada em “última instância” pela VIOLÊNCIA; em seguida, e por razões diferentes, porque a esfera de influência tem um âmbito internacional, a necessidade de mais liberdade se dá MAIS pela força da IDEOLOGIA, isto é, através da cultura ideológica da luta política. E assim, pelo que acaba de ser exposto, fica claro as duas visões a respeito da presença da noção de liberdade entre nós no período estudado, é bom lembrar, que utilizei a noção de "determinação em última instância" do filósofo Louis Althusser, para evitar que caíssemos num determinismo mecanicista e fácil. Em seguida, vamos tentar compreender outras formas e manifestações da presença da liberdade, que se deu também de forma proeminente através de outras esferas de influência. A liberdade se introduzia de outra forma, se apresentava por outro viés, que chamaria de terceira esfera, ou esfera "mais" filosófica, através das suas manifestações poéticas, literárias e filosóficas, ainda ideológicas por um lado, mas sendo agora, sobretudo morais e éticas, como, por exemplo, a questão dos valores. Para iniciar a terceira parte ou esfera, todos sabem a força que teve a expressão cultural da "beat generation' nos EUA, com Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Bourroughs e muitos outros, como foi o caso do psicólogo e professor Timothy Leary, que não era propriamente dito um "beat", mas que acabou fazendo parte do movimento de libertação da época, com a pregação favorável às experiências com LSD na universidade de Harvard, onde procurava levar os seus alunos e adeptos do movimento, a alcançar estados alterados de consciência, buscando ampliar a compreensão, autoconhecimento e libertação da massacrante luta diária pela sobrevivência de uma sociedade de consumo de massa. Nunca é demais repetir como esse grupo de poetas, escritores, ensaístas e artistas em geral influíram fortemente no movimento hippie dos sessenta. A estratégica fórmula do “turn in” & “drop out”, ou seja, primeiro se liga e depois cai fora. O que significa literalmente escapar do sistema social padrão, através de uma ruptura radical com algo que não interessa mais, que se rejeita de forma total e absoluta. E assim, mais uma vez tem-se a liberdade na linha do horizonte. E por último, não se pode tratar da questão de demanda por mais liberdade sem falar em Sartre e Camus, que na França do pós-guerra faziam parte da grande agitação crítica e filosófica em prol da liberdade, que vai desaguar no existencialismo francês. Existencialismo, que não se reduzia apenas a uma filosofia filosofada e teórica, mas também uma concepção de vida e de mundo, que se constituía num movimento cultural, que envolvia além da filosofia propriamente dita, também moda, a música com Juliette Gréco e o Jazz feito em Paris na época, a cena teatral e cinematográfica, com o teatro “National Populaire” e a “nouvelle vague”, o cahier du cinema, além da literatura do "nouveau Roman", etc. Para a geração de hoje, é muito difícil imaginar a força da presença filosófica dessa cultura, principalmente de Jean Paul Sartre no Brasil daquela época. Por essas bandas só se falava em existencialismo, mesmo para quem não entendia nada do assunto e do seu significado. Mas tal era a importância dada à questão do existencialismo, que quase todo mundo repetia, e era um verdadeiro turbilhão na opinião pública. Vivia-se sob o signo da liberdade sartriana, de que todo mundo é livre mesmo atrás das grades, quem não se lembra dessa máxima? Portanto, para concluir, e por tudo o que foi mostrado até aqui, não se tinha mesmo como escapar da forte influência da demanda por mais liberdade, como algo que se impunha à vontade, e por diferentes esferas e dimensões, fossem elas políticas, econômicas, ideológicas, científicas ou filosóficas. Por essa razão, nunca é demais repetir, como isso se dá ou se deu no caso brasileiro. Vimos que a questão da liberdade se impõe como necessidade, quando a sua ausência atinge a todos, pela força do autoritarismo e da violência coercitiva, através de uma ditadura política. Vimos, por outro lado, quando essa demanda por liberdade, emerge através de grupos segregados da sociedade, que lutam por mais direitos civis através de ações afirmativas, pela ampliação do espaço já conquistado e da própria luta política e efetiva, que acaba se estendendo e atingindo outros segmentos da sociedade. Vimos também, quando toda a demanda por ampliação de liberdade chega à esfera das idéias e atinge os intelectuais, trazendo para a arena de luta ideológica, artistas, literatos e filósofos. Constituindo-se naquilo, que se costuma chamar de luta de classes na teoria. E com esse resumo final, damos por concluído o presente painel da questão da liberdade e do seu efeito entre nós no período apontado, embora reconheça, que tal como o amor, essa é uma questão para a vida toda.
Na forma de Crônicas e ensaios, abordo assuntos da Política e da Filosofia, e alguma invenção nos contos.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O Iconoclasta
O iconoclasta inconsequente é quase um pleonasmo.
Por que não é prudente ser iconoclasta, como éramos, ou desejávamos ser, de forma quase absoluta, na adolescência? Por que querer quebrar as regras, pelo simples prazer de quebrá-las? É possível, que em determinadas situações, seja impossível não quebrar algumas. Mas é um acidente, quando isso acontece, é uma exceção, não a regra. Do outro lado, a regra básica é: ter a intenção, o objetivo e o desejo de querer quebrar com todas as regras, não importam quais, sem precisar de razão alguma. No afã de querer ser consequente, com a última regra, ou seja: a regra de precisar quebrar com todas as regras. Quase sem perceber, sem nos darmos conta, pois não havia consciência da situação: DECRETAMOS a sentença de morte da regra básica. E dessa maneira, toda a sequência de quebrar com todas as regras de forma infinita e ininterrupta, é subitamente interrompida. E, portanto, nos despedimos e saímos de cena literal e efetivamente, com a quebra da derradeira regra de precisar quebrar regras, da necessidade, que é a regra de quebrar com a regra de querer quebrar com todas as regras.
sábado, 4 de dezembro de 2010
OS IMPERDOÁVEIS
A intolerância vinda de onde não se espera
É curioso
observar, como certas pessoas, que fazem questão de mostrar, que são gente de
bem, porque são bem posicionadas e inseridas na vida social de sua área de
influência e, portanto por isso mesmo, consideradas influentes. Gente que faz
questão de exibir, que se mantêm atualizada em várias matérias e assuntos, como
por exemplo, seguem com ardente paixão as filosofias da moda, ou o movimento
estético-artístico mais de vanguarda, e também as últimas novidades em matéria
de psicoterapia, e por aí afora. Com a necessidade de precisar mostrar e exibir
que são bacanas, que são os tais, que estão por cima da carne seca. Enfim, é
gente, que acredita ainda piamente, que a propaganda é a alma do negócio, e
leva a autopromoção e o marketing de si mesmo às últimas consequências. Não
preciso dizer, que vistos assim de fora, por um observador neutro, essas
pessoas poderiam ser consideradas como sendo muito bem sucedidas, pessoas de
sucesso. Além de todos esses atributos mencionados, poder-se-ia acrescentar
ainda, que consideram-se também revolucionários, não mais na política, claro,
porque hoje em dia, ser revolucionário na política, está fora de moda. Mas
revolucionários nos costumes, que é o que importa hoje, segundo os próprios.
Pois consideram, que é preciso, que os mais ousados efetivem a sua emergência.
Em termos
filosóficos, não acreditam mais em verdades de nenhuma espécie, pois o
conhecimento é relativo, já que a realidade é efêmera e fragmentada, ou talvez
líquida, o que devem ter descoberto lendo algum filósofo de plantão da última
moda. Para eles não tem mais nenhum sentido falar em sistema de pensamento, ou
sobre o todo social, a noção de totalidade é uma falácia simplista, uma
abstração, faz parte da velha metafísica. Pois bem, caso façamos um esforço
imaginativo, para materializar alguém com o perfil acima descrito, de imediato
consideramos, que é o máximo essa criatura, que é fácil lidar com alguém assim
perfilado. Pessoas dessa estirpe devem ser bacanas, tolerantes, que jamais
julgam os outros pela aparência, já que posso ser e não ser ao mesmo tempo um
monte de coisas. Portanto estou a salvo, com toda a minha esquisitice, do
implacável julgamento dos meus pares, pelo menos por parte daqueles
considerados modernos e bacanas. Mas infelizmente não é dessa maneira, que as
coisas ocorrem e fluem socialmente. Por mais paradoxal, que possa parecer.
Justamente as pessoas, que se acham modernas na teoria, são as que têm
demonstrado serem as mais intolerantes com o diferente na prática. O fora do contexto, o
inadequado, o louco, o desajustado, o imigrante, em suma: o outro, ou qualquer
pessoa fora do padrão estabelecido, que aparentemente, pelo fato de
apresentar-se de forma diversa, é o candidato preferencial
para receber um carimbo, um crivo social, e ser vista como algo, uma coisa, já
que dizem: "Olhem! Vejam só o que ele é!". Como se o ser dessa pessoa
tivesse se reduzido a apenas um clichê. Ou pérolas do tipo: "Ora, já que
alguém pensa dessa forma, ela não me interessa mais". Mostrando dessa
maneira a dificuldade em lidar com o contraditório. Daí que, quando pessoas que
se consideram modernas, e vemos depois no dia a dia, não serem tão modernas
assim, justamente porque eram as últimas de quem se fosse esperar serem tão
intolerantes, e que viessem na prática a reforçar preconceitos de forma tão
veemente. Pois é uma enorme incoerência, confessarem o tempo todo, que não
acreditam em nada considerado definitivo, pois não creem em verdades, pelo
menos na teoria, já que se dizem céticos; e que, diante de um igual, outro ser
humano qualquer, que por acaso apresente algum sinal, por menor que seja, que
não esteja de acordo, em sintonia ou conformidade, com o ideal imaginário da
pseudo modernidade, mais que de imediato, decide-se colocar no diferente um
carimbo denunciante, um selo ou uma marca de Caim. Não literalmente, como
faziam os nazistas durante a segunda guerra, pondo a estrela de Davi nos
judeus, ou o triângulo rosa nos gays. Para em seguida, posto esse carimbo
simbólico, poder julgar, controlar, condenar, aplicar sanções com todas as
punições cabíveis, e enfim definitivamente descartá-lo para todo o sempre. Eles são imperdoáveis?
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Nietzsche e a totalidade
Acho que consegui entender o que se queria dizer, quando refere-se à filosofia de Nietzsche, como tendo uma forma própria de "pensamento". E você não está errado. E como isso se dá? É preciso lembrar, que Nietzsche por formação, vivia no âmbito das palavras, nos meandros dos termos, vocábulos, conceitos e o uso que era feito deles, pois era filólogo de formação. Trabalhava os conceitos no âmbito da linguagem, daí a procura da origem lá atrás dos tempos, do significado de um termo qualquer, movimento esse, que ele depois vai chamar de genealogia, e que mais tarde Foucault vai apelidar de arqueologia dos saberes e das palavras. Buscando o(s) significado(s) original daquele termo, na origem de tudo, lá no começo do uso do termo, fica mais fácil tentar compreendê-los melhor nos dias atuais, como também fica-se com mais instrumentos para contestá-los e desconstruí-los. Caso seja esse o interesse da conjuntura, por “n” razões, que poderá ser política, moral, ideológica, teórica, luta de classes, etc. Portanto essa é a vertente de Nietzsche, é nessa esfera, a esfera da linguagem, nesse mundinho, nesse pequeno universo linguístico, antes mesmo de existir Saussure, é onde atua o nosso personagem e autor de renome. Por outro lado, as filosofias chamadas tradicionais, as filosofias sistêmicas, que atuam também, mas não apenas no campo limitado da linguagem, pois são ontológicas “par excellence”, porque dedicam-se ao estudo do ser e do mundo enquanto ser, sempre na perspectiva da TOTALIDADE. E o que significa isso? Mesmo quando trata de um fenômeno particular, o entende e compreende como parte de um todo, é a visão do particular na perspectiva da totalidade. A totalidade sistêmica está, no caso das filosofias tradicionais e ontológicas, sempre no horizonte e no presente de todas elas. É o pano de fundo desse segundo tipo de filosofia. Logo é um cenário de reflexão e pensamento completamente diferente da perspectiva nietzschiana. Se formos estudar a modernidade contemporânea, na esfera filosófica, sobretudo expressa e impressa em língua francesa, devido a forte influência do instrumental do modelo linguístico saussuriano, Nietzsche tem um enorme prestígio, e considerado contemporâneo e atual. Exatamente por essa razão da proximidade com o modelo padrão linguístico de análise. Agora o uso que é feito de Nietzsche, por diferentes autores contemporâneos, varia muito de autor pra autor, cada qual puxa a brasa para a sua sardinha, há todo o tipo de utilização de Nietzsche, que fica muito distorcido algumas vezes, mas tudo isso são outros quinhentos réis. Não sei se ficou claro, esse ligeiro alinhavo panorâmico, que em linhas gerais, tentei traçar dos dois modelos de pensamento, pelo menos, no que é específico e distinto, em ambos os modelos de pensamento, para quem sabe um aprofundamento maior no futuro próximo.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O mesmo personagem em papéis diferentes
A cabeça do soldado das forças armadas, saindo de um blindado, com um capacete camuflado. Trata-se de homem jovem e negro. E o que mais me chamou a atenção, foi o seu olhar, uma mistura de medo e apreensão, com o medo dominando. O curioso, é que se puséssemos, com um toque de mouse, o rosto dele no corpo de um combatente traficante, dos muitos que não faltaram na mídia durante toda a semana, não sei se mudaria alguma coisa. Ambos negros, teríamos tanto lá como cá, representantes saídos da mesma classe social, do mesmo meio social e racial, e porque não dizer cultural. Não sei por que, mas de imediato veio-me logo à mente, o que poderia estar a se passar pela sua mente naquele exato momento. Qual deveria ser o seu nível de consciência a respeito de toda a situação vivenciada? Como estaria se sentindo? Saberia do seu papel naquele minifúndio? É difícil supor uma resposta única para qualquer uma das perguntas. Todos sabem pela experiência e pela História, que praticamente não existe espírito de corpo, o corporativismo, entre os subalternos, explorados e humilhados. A maior crueldade, em geral, é praticada por alguém de baixo contra outro igual, quando se encontra numa posição de mando, de poder. A literatura mundial está cheia de exemplos sobre esse fenômeno. Haja vista a situação da capatagem no Brasil escravocrata. Para analisar essa situação e conseguir chegar a uma compreensão e entendimento, do porquê de tudo isso, pode-se tomar vários caminhos, sem jamais esgotá-los. De início alguém poderá dizer que somos influenciados por uma ideologia dominante, e que quanto mais nos encontramos na base da pirâmide social, mais ficamos vulneráveis às influências daquela ideologia. Dessa forma, parece um simplismo, mas entende-se, que alguém agrida com tanta crueldade outro ser de sua mesma origem social. Porque embora um indivíduo qualquer, um soldado da polícia militar, por exemplo, ao cometer arbitrariedades contra um pobre negro qualquer, ele o faça com a cabeça feita por todo um condicionamento realizado ao longo de anos, de forma que é como se ele não tivesse uma cabeça própria. É o caso similar de um indivíduo negro qualquer, que porventura manifesta racismo contra outro negro, isto é, ele apenas está reproduzindo o racismo dominante da sociedade assimétrica e desigual, a que pertence. Para lutar contra essas situações paradoxais, nunca é demais lembrar das políticas de 'ação afirmativa' praticadas em outras sociedades, e que são bem eficazes contra esses fatos. Na medida que, através do trabalho da desconstrução dos valores dominantes, descobrimos o que está por trás, e tem como resultado o desmascaramento de certos símbolos e conceitos, até ao ponto de se poder desfazer as ideias, que alimentam aqueles preconceitos. Para concluir, considero que se fosse possível elaborar oficinas filosóficas de desconstrução ideológica, para esses grupos, precisaríamos trabalhar tanto com o soldado da foto, ou grupo de soldados, ocupantes de ocasião do complexo de favelas; como também com indivíduos ou grupo de moradores das comunidades, e o morro do alemão é um exemplo bem ilustrativo de tudo isso.
Link da foto: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/inde28112010.shl
Militar das Forças Armadas em veículo blindado durante cerco a traficantes no Complexo do Alemão (zona norte do Rio)
terça-feira, 16 de novembro de 2010
A direita não existe mais? Será?
É muito comum se ouvir por aí: "ah, essa coisa de esquerda e direita não existe mais!". E o que significa essa afirmativa pela negação, da existência em nossos dias da diferença entre esquerda e direita, e até mesmo sobre a inexistência de ambas? O que é que não existe mais? Será que o ideário conservador e intolerante, que caracteriza o pensamento de direita e é sua especificidade, que não se manifesta ou se materializa mais em nossos dias? Ora, pelo que me conste, nunca esteve tão presente como agora, as denúncias impressas na grande mídia, sobre diferentes tipo de intolerância, tanto racial como em relação a questão de gênero, orientação sexual e outros como a xenofobia. Os exemplos são os mais variados possíveis, é só lembrar a questão dos ciganos na França, a situação dos turcos na Alemanha, a questão da intolerância quanto ao uso do véu islâmico em diferentes países do bloco europeu, a proibição de construção de minaretes na Suíça, mesquita pode, mas sem minaretes, aquelas torrezinhas características, quase um ícone das mesquitas. Atravessa-se o Atlântico e nos States, o que encontramos? O 'Tea Party', grupo radical e fundamentalista da direita do Partido Republicano, com toda a sorte de prescrições e restrições, um verdadeiro rol ou lista de proibições, tipo isso pode, aquilo não pode. Uma miscelânea de liberalismo político, ou seja, redução do tamanho do Estado, o tal do Estado mínimo, com intolerância religiosa agravada pelo fundamentalismo cristão evangélico. Qualquer projeto de política pública, para atender os mais necessitados, que na Europa não seria mais do que mais uma medida de amparo social, coisa de social-democrata, do lado de cá do Atlântico é vista pelos 'NeoCons' como coisa de comunista. Além disso tudo, temos o conservadorismo religioso, que conduz a um fundamentalismo, tão ou mais radical, que a doutrina xiita iraniana. E aqui nos trópicos, acompanhamos como certas questões de cunho religioso, direitos civis de homossexuais e a questão do aborto, foram usadas durante a campanha política para presidente no ano de 2010 de forma sub-reptícia, invertendo a ordem natural das coisas, nos levando para trás em total retrocesso. Com o objetivo claro de jogar contra a candidata da situação, a oposição raivosa de setores tacanhos e atrasados da sociedade, que ainda são contra aquelas questões. Embora não tenha entrado em maiores detalhes, nos pormenores dessas manifestações de intolerância, tanto na Europa, como nos EUA, nem mesmo no Brasil, fico a pensar, no que há de comum entre as diferentes manifestações de intolerância, o que é precisamente específico e peculiar, para caracterizá-las como de direita. E mais do que de repente, acontece em São Paulo o episódio do espancamento de alguns indivíduos, absurdamente julgados pela aparência como gays, por bandos de delinquentes e desordeiros, alguns de classe média alta, como foi o episódio da Avenida Paulista no domingo passado. E também no Rio de Janeiro, o tiro tomado por um rapaz de dezenove anos, que passeava com amigos no parque do Arpoador, apenas porque se disse gay para uns soldados do exército em serviço. Soldados esses, segundo o jovem, que ofendiam outros rapazes que estavam no local em momento de lazer, exigindo documentos de forma intimidatória, etc, gerando total constrangimento para os visitantes do local. O caso do Rio é emblemático porque, o que está em jogo, é algo do tipo, vivo numa sociedade em que ser viado é uma coisa feia e obscena, portanto como você é viado, pois acho você parecido com um, então eu posso ofendê-lo, humilhá-lo, em seguida espancá-lo, massacrá-lo e finalmente destruí-lo. Se você quer viver aqui sem punições, trate de ficar, estar e permanecer invisível, caso contrário pagará um alto preço, talvez até mesmo com a própria e sem valor vida. O que é uma manifestação como essa? Coisa típica de filme sobre nazistas, a direita mais extremada possível, a intolerância levada as últimas consequências. A configuração de uma mentalidade, composta de algumas idéias, noções, preconceitos e crenças de intolerância contra determinados símbolos, e consequentemente contra indivíduos sob o manto de tais símbolos, a mover e mobilizar certos agentes públicos e atores sociais e levá-los a praticar atos anti-sociais, invadindo direitos e praticando crimes. Se manifestações como essas não se trata, ou se configura como gestos de direita, o que será então? Como classificá-lo? Como compreender tais fenômenos, sem chamá-los pelo nome, nem mostrar sua origem, digitais e raízes ideológicas?
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Sinais do ovo da serpente
A vida no período pós-eleitoral parecia que estava voltando aos poucos aos padrões de normalidade, que é a vida cotidiana sem os palanques eleitorais, desse ou daquele partido ou grupo político. Quando a blogosfera da internet foi inundada por e-mails apócrifos, a fazer todo tipo de terrorismo político, de cunho racista, pregando a morte aos nordestinos e outros quejandos. Sentia-se, pelo clima quente, que existiu durante a campanha, que os ânimos não se amainariam assim tão rapidamente. E não deu outra, a guerra ideológica continua, ou seja, a chamada luta de classes na teoria, para ser mais elegante. Porque, pelo visto, não teremos mais folga, é preciso tirar os tacapes teóricos da mochila, e se colocar em posição de combate, de forma quase que permanente daqui pra frente. Em face do desejo de registrar esse momento, e tratar do assunto em questão, fez-se necessário a reprodução aqui nesse espaço, de um post, que na verdade trata-se de uma troca de e-mails, como veremos a seguir:
Como vale a pena esperar um pouco a sua resposta, pois quando ela chega, é quase como um bálsamo, que em vez de atiçar os ânimos de nosso espírito animal, pelo contrário, nos deixa mais tranquilo e trabalha a nossa compreensão. Também gostaria muito, de poder, de vez em quando, trocar idéias com a sua esposa, que considero ter mais identidades do que diferenças, e ter diferenças com alguém, não impede o diálogo, pelo contrário. E por que é importante o diálogo por escrito? Porque estando à distância, temos muito mais tempo para elaborar o pensamento, coisa que ao vivo e a cores, no calor emocional do “tête à tête”, acaba se perdendo. Por outro lado é bom o contato físico e o encontro, pode-se e deve-se fazê-los sempre que possível. Vamos agregar, vamos incluir, trabalhar "o lidar" com o contraditório, por que não? Agora, uma coisa que não tenho a menor habilidade, nem sei como lidar, e foi uma coisa, que aflorou muito nessa última campanha política, despertada e incentivada pelos partidários do candidato Serra, é a manifestação de ÓDIO. Ódio contra nordestinos, ódio contra homossexuais e contra as mulheres na política, usado como artilharia política, como arma para desqualificar adversários. Uma coisa é o debate político e ideológico, onde se tenta através do diálogo e da argumentação, cada um dos lados tenta mostrar as razões, que os levaram a fazer essa ou aquela opção ou escolha. Inclusive essa foi a motivação principal, que me moveu, quando decidi abrir o blog, era criar um espaço para debater ideias.
Combater os equívocos cometidos por articulistas de mídia e alguns políticos, equívocos conceituais e outros, como por exemplo, a distorção de sentido com certos termos e vocábulos, para fazer barulho em face de certos interesses, de forma sub-reptícia. Só não tenho levado adiante esse objetivo com mais afinco por falta de interlocutores, pois sou um pouco movido à paixão, e como não tenho a sabedoria de um pensador independente, que fica a falar aos quatro ventos, quase como um arauto moralista e meio enlouquecido, não foi possível dar continuidade ao blog. Não devo ter competência nem habilidade para ficar pregando no deserto, pois preciso do outro, do interlocutor, para quase tudo na vida, e principalmente e sobretudo para escrever, preciso saber para quem estou dirigindo a palavra. Não tenho vocação para evangelista nem sou nietzschiano. Agora voltando à questão do ódio recente, que veio à tona, despertado da letargia e do silêncio da raiva individual e coletiva, porque hoje em dia coisas desse tipo acabam também desaguando em redes sociais. Ódio tal, que alguns carregam o tempo todo, mas que não tem como canalizar de forma eficiente. A gente sabe muito bem, que esse ódio está por aí, aguardando a melhor oportunidade. É aquela estória do ovo da serpente. Existe um exército de indivíduos frustrados e quase derrotados na vida, mas não apenas, que estão prontos para transferir a sua culpa de perdedores para alguém, ou para algum grupo específico da sociedade, que pode muito bem ser os gays, ou os nordestinos em São Paulo, que são tratados quase como bodes expiatórios. Você disse: “que chegou a me ver quase como um cabo eleitoral”. Comecei a receber de gente que não conhecia, e também não tenho habilidade nem conhecimento de internet suficiente para rastrear a origem, DEZENAS de e-mails cheios de ódios, é claro que o alvo maior era a candidata Dilma, mas nas entrelinhas revelava o espírito raivoso contra determinados grupos minoritários, ou nem tão minoritários assim, não importa, o ódio estava muito presente. Bem, diante de tudo isso, o que é que se pode fazer, como disse antes, não tenho preparo para lidar e combater o ódio, não sei se o ódio se combate com o ódio, como estabelecia a famosa lei do talião, do olho por olho, e dente por dente. Portanto, devido a todas essas circunstâncias conjunturais, fui forçado a tomar alguma atitude, e assim passei a repassar para aqueles idiotas nazi-fascistas odientos, todo o arsenal, que recebia com pensamento contrário. Houve momentos, que temi ter o computador infectado por algum vírus maldito de um hacker fascista. Eleições à parte, independente de quem vença as eleições, acho que nessas oportunidades, sempre se tem a chance de perceber em que mundo de valores se estar a viver, em que sociedade se está imerso, como somos, como pensamos, o que queremos para o mundo. Muita coisa vem à tona, aparece quase como bandeira, em geral de forma subconsciente, e dessa maneira muita coisa se revela. E aí, se nos consideramos um pouquinho conscientes, não podemos nos omitir. É necessário desmascarar certos comportamentos nocivos socialmente, que a gente sabe muito bem até onde pode levar, pois já assistimos esse filme antes, em outras latitudes, e até mesmo aqui pelos trópicos em décadas recentes. Porque o ovo da serpente está sempre sendo chocado em algum ninho à espera de momento oportuno, em que algum político, ou outro agente público, lhe ofereça o gancho adequado, o ponha em cena, o traga a tona, como vimos na última campanha eleitoral brasileira de 2010.
Como vale a pena esperar um pouco a sua resposta, pois quando ela chega, é quase como um bálsamo, que em vez de atiçar os ânimos de nosso espírito animal, pelo contrário, nos deixa mais tranquilo e trabalha a nossa compreensão. Também gostaria muito, de poder, de vez em quando, trocar idéias com a sua esposa, que considero ter mais identidades do que diferenças, e ter diferenças com alguém, não impede o diálogo, pelo contrário. E por que é importante o diálogo por escrito? Porque estando à distância, temos muito mais tempo para elaborar o pensamento, coisa que ao vivo e a cores, no calor emocional do “tête à tête”, acaba se perdendo. Por outro lado é bom o contato físico e o encontro, pode-se e deve-se fazê-los sempre que possível. Vamos agregar, vamos incluir, trabalhar "o lidar" com o contraditório, por que não? Agora, uma coisa que não tenho a menor habilidade, nem sei como lidar, e foi uma coisa, que aflorou muito nessa última campanha política, despertada e incentivada pelos partidários do candidato Serra, é a manifestação de ÓDIO. Ódio contra nordestinos, ódio contra homossexuais e contra as mulheres na política, usado como artilharia política, como arma para desqualificar adversários. Uma coisa é o debate político e ideológico, onde se tenta através do diálogo e da argumentação, cada um dos lados tenta mostrar as razões, que os levaram a fazer essa ou aquela opção ou escolha. Inclusive essa foi a motivação principal, que me moveu, quando decidi abrir o blog, era criar um espaço para debater ideias.
Combater os equívocos cometidos por articulistas de mídia e alguns políticos, equívocos conceituais e outros, como por exemplo, a distorção de sentido com certos termos e vocábulos, para fazer barulho em face de certos interesses, de forma sub-reptícia. Só não tenho levado adiante esse objetivo com mais afinco por falta de interlocutores, pois sou um pouco movido à paixão, e como não tenho a sabedoria de um pensador independente, que fica a falar aos quatro ventos, quase como um arauto moralista e meio enlouquecido, não foi possível dar continuidade ao blog. Não devo ter competência nem habilidade para ficar pregando no deserto, pois preciso do outro, do interlocutor, para quase tudo na vida, e principalmente e sobretudo para escrever, preciso saber para quem estou dirigindo a palavra. Não tenho vocação para evangelista nem sou nietzschiano. Agora voltando à questão do ódio recente, que veio à tona, despertado da letargia e do silêncio da raiva individual e coletiva, porque hoje em dia coisas desse tipo acabam também desaguando em redes sociais. Ódio tal, que alguns carregam o tempo todo, mas que não tem como canalizar de forma eficiente. A gente sabe muito bem, que esse ódio está por aí, aguardando a melhor oportunidade. É aquela estória do ovo da serpente. Existe um exército de indivíduos frustrados e quase derrotados na vida, mas não apenas, que estão prontos para transferir a sua culpa de perdedores para alguém, ou para algum grupo específico da sociedade, que pode muito bem ser os gays, ou os nordestinos em São Paulo, que são tratados quase como bodes expiatórios. Você disse: “que chegou a me ver quase como um cabo eleitoral”. Comecei a receber de gente que não conhecia, e também não tenho habilidade nem conhecimento de internet suficiente para rastrear a origem, DEZENAS de e-mails cheios de ódios, é claro que o alvo maior era a candidata Dilma, mas nas entrelinhas revelava o espírito raivoso contra determinados grupos minoritários, ou nem tão minoritários assim, não importa, o ódio estava muito presente. Bem, diante de tudo isso, o que é que se pode fazer, como disse antes, não tenho preparo para lidar e combater o ódio, não sei se o ódio se combate com o ódio, como estabelecia a famosa lei do talião, do olho por olho, e dente por dente. Portanto, devido a todas essas circunstâncias conjunturais, fui forçado a tomar alguma atitude, e assim passei a repassar para aqueles idiotas nazi-fascistas odientos, todo o arsenal, que recebia com pensamento contrário. Houve momentos, que temi ter o computador infectado por algum vírus maldito de um hacker fascista. Eleições à parte, independente de quem vença as eleições, acho que nessas oportunidades, sempre se tem a chance de perceber em que mundo de valores se estar a viver, em que sociedade se está imerso, como somos, como pensamos, o que queremos para o mundo. Muita coisa vem à tona, aparece quase como bandeira, em geral de forma subconsciente, e dessa maneira muita coisa se revela. E aí, se nos consideramos um pouquinho conscientes, não podemos nos omitir. É necessário desmascarar certos comportamentos nocivos socialmente, que a gente sabe muito bem até onde pode levar, pois já assistimos esse filme antes, em outras latitudes, e até mesmo aqui pelos trópicos em décadas recentes. Porque o ovo da serpente está sempre sendo chocado em algum ninho à espera de momento oportuno, em que algum político, ou outro agente público, lhe ofereça o gancho adequado, o ponha em cena, o traga a tona, como vimos na última campanha eleitoral brasileira de 2010.
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