sábado, 18 de maio de 2019

Como a direita se articula e se financia

A estratégia principal dos lacaios locais do capitalismo ultraliberal, ideólogos do liberalismo econômico, privatistas de carteirinha, partidários de toda desregulamentação e do Estado mínimo. Como mostra o artigo do site “The Intercept”, são pagos e financiados com o dinheiro de grandes trustes e grupos financeiros norte-americanos. Coordenados pela Atlas Network, utilizam como arma principal, no combate ideológico para derrotar governos populares com base na esquerda política, espalhar mentiras, e o uso constante da desqualificação contra todos os principais quadros e líderes esquerdistas, que ocupem cargos no governo, e contra todas as políticas públicas de inclusão social e ação afirmativa, qualquer que seja essa política, não importa, precisam ser atacadas, desqualificadas, e assim causarem o pior desgaste possível ao governo esquerdista de plantão, o desestabilizando completamente diante da opinião pública, até que consigam finalmente atingir o objetivo, o alvo, ou seja, derrubar o governo, que as implantou. Foi assim, que fizeram com a Dilma, desde 2013, que por milagre não perdeu as eleições gerais de 2014. Foi reeleita com uma diferença pequena de votos, mas não conseguiu governar mais nenhum dia após a posse em 2015, com um Congresso nas mãos de Cunha, um quadro político completamente desfavorável, pautas bombas e muita chantagem e conspiração. Dilma não caiu de imediato, porque o Congresso tem os seus ritos, precisaram abrir aquele falso processo de impeachment sem crime de responsabilidade, que só conseguiu produzir o afastamento definitivo da presidente em maio de 2016. Mesmo com ela ainda no cargo, o seu vice, Michel Temer, que já conspirava de forma escancarada com todos os golpistas, apresentou, em 29 de outubro de 2015, o projeto político: “Uma Ponte para o futuro”, de cunho profundamente neoliberal. Por essa razão, é que quando a Dilma caiu com impeachment em 2016, o seu vice Temer, em vez de dar prosseguimento ao projeto político que os reelegeu em 2014, MUDOU radicalmente toda a política de Estado, todo projeto político, que vinha sendo implementado desde a posse de Lula no primeiro mandato em 2003. Temer deu uma guinada de 180 graus em direção ao neoliberalismo econômico e à toda sua cartilha financista, com privatizações, reforma trabalhista, redução das garantias constitucionais dos cidadãos, desaposentadoria de pacientes com HIV. Enfim, só não conseguiu realizar a reforma da Previdência, em virtude dos dois inquéritos criminais, que pipocaram contra ele, em virtude da delação de Joesley Batista da JBS. O governo do Capetão é uma continuação do governo Temer, o saco de maldades contra o povo começou com Temer. Por isso, que alguns bolsonímions diante das críticas contra o governo do Capetão, que ainda não apresentou nenhum projeto para o país, a não ser propor a entrega do país aos interesses norte-americanos e a destruição de direitos dos trabalhadores e estudantes. Seus apoiadores REAGEM sempre afirmando, que Temer era Dilma, que era o vice do PT, mas não dizem, omitem, que temer não aplicou, em nenhum momento depois que tomou o cargo de presidente na mão grande, a política do PT e de Dilma Rousseff. Dizer que Temer é Dilma, é uma mentira deslavada, mas é sempre assim que fazem. Praticam o contorcionismo verbal, distorcem os fatos em causa própria. Atacam os adversários com mentiras e se defendem também com mentiras.
P.S. Não deixem de ler o artigo.

domingo, 28 de abril de 2019

Sobre a demanda por autocrítica de Lula

Considero muito curiosa a tenaz demanda por autocrítica de Lula e do PT por parte de certos jornalistas, e as vezes, chego a me irritar diante desse tipo de pressão da mídia contra Lula. O que me faz indagar, o que leva uma pessoa a cobrar autocrítica de uma vítima da injustiça, e no entanto não cobrar nada dos seus algozes. Numa comparação um tanto exagerada, seria como espancar um pedestre, que acabou de sofrer um atropelamento lesivo na rua, e liberar o motorista atropelador. Mesmo depois da revelação de tantos documentos pelo Wikileaks, mostrando o envolvimento do Departamento de Justiça dos EUA, CIA, NSA, State Dept., etc. Do treinamento de tantos agentes públicos brasileiros e de outros países latino-americanos nos EUA, na preparação de um futuro Lawfare e guerra híbrida contra esses mesmos países. É sempre bom lembrar, que a estratégia agora mudou, nos anos 60 os agentes públicos, que recebiam treinamento nos EUA, como um pré-vestibular preparatório para futuros golpes de estado eram todos militares. Quem não se lembra da antiga Escola das Américas. Não é possível mais, que ainda se possa continuar agindo com tamanha ingenuidade em relação a certas questões geopolíticas, diante de tanta informação disponível. Será ingenuidade, burrice ou má-fé? O Brasil sofreu um ataque, que continua em curso, que através de parte do poder judiciário, ministério público e Congresso, teve uma presidente afastada sem crime de responsabilidade, teve quase todas as suas principais empreiteiras dizimadas. Edward Snowden revelou ao mundo em junho de 2013 num quarto de hotel em Hong Kong, a espionagem contra Dilma Roussef e contra a Petrobrás, e a partir daí, se viu todo o desdobramento, que essa espionagem causou ao país. Conforme Lula diz na entrevista dada ao El país na sexta 26/04, o golpe no Brasil não teria sido concluído sem a sua prisão. O objetivo do império sempre foi afastar o PT do poder, porque era o óbice contra o apetite deles pelo pré-sal brasileiro. Então para quê ficar na demanda por autocrítica de Lula ou do PT, quando os mesmos e o país, são vítimas do jogo político internacional, com a participação de setores internos, empresariais, midiáticos, políticos e judiciais evidentemente? É inacreditável assistir jornalistas pedindo autocrítica de Lula, como foi o caso da jornalista Mônica Bergamo na entrevista de sexta feira, com tanta coisa relevante a respeito do país, para ser perguntado. A demanda por autocrítica supõe atribuir ao acusado uma parcela de culpa na falsa acusação, de que é vítima e perseguido político, o que não deixa de ser uma ponta de maldade por parte de quem faz a pergunta. Imperdoável!

As ameaças contra o ensino de filosofia

O governo Bozzo ameaça acabar, de forma definitiva, com todos os cursos de graduação e licenciatura nas áreas de Filosofia e Ciências Sociais nas universidades públicas federais, justo no momento onde alguns personagens saindo das sombras da política, volta e meia, vem a público manifestar desapreço, e questionar sobre a importância de tais cursos. Sem querer ser paranoico, até parece uma coisa planejada. Alguns chegam a dizer, que esses cursos de Filosofia não servem para nada, não tem importância e, raciocinando pela lógica do mercado financeiro, não dão lucro para ninguém. Ora se é assim, que a filosofia não serve para nada, se não tem mais importância, então porque todos esses ataques e ameaças? Por que desejar por um fim, terminar, extinguir, acabar e destruir com os cursos de filosofia, e assim acabar com o ensino em definitivo? Se essas disciplinas sofrem tantos ataques é porque importam de alguma maneira, estão incomodando os poderosos de plantão, não é mesmo? Tornam-se, pelas suas especificidades e peculiaridades, uma espécie de arma adversa e do contra, como uma má consciência de algum pensamento único ou algum regime político sem pensamento, que tenta se impor pela força de mentiras, e está querendo se tornar hegemônico, ou quem sabe, na melhor da hipóteses, seja a velha luta de classes na teoria. Então, é claro e evidente, que o ensino de filosofia tem importância. O exercício da filosofia, proporcionada pelo seu ensino, ou seja, a prática do pensamento livre, sem medo e sem amarras; portanto, o exercício da reflexão, do por em questão situações dadas e fenômenos da realidade, acabam, como práticas, se tornando muito indesejáveis para certos governantes truculentos e autoritários. Governantes que não sabem e não querem jamais ter que lidar com o contraditório. Acontece, que não adianta impedir pela força quem professa determinada teoria filosófica, ou queimar certos livros, achando com isso, que agindo dessa forma, exterminarão por completo com uma teoria maldita e fora da ordem do momento político representado por algum tirano. Não adianta nada disso, porque não surtirá o menor efeito, como já foi visto inúmeras vezes na história. Certamente o surgimento de uma teoria filosófica, apenas espelha e expressa no plano teórico, uma visão cognitiva da própria realidade factual. Não é exterminando com o ensino de teorias e de seus tratados, ensaios e livros, que estará se livrando do problema, da pedrinha no calcanhar do déspota de plantão. Quando sabemos muito bem, que o problema, quando existente, encontra-se na própria realidade, que não se deseja mudar ou alterar, para continuar mantendo os mesmos privilégios seculares para poucos. E não se deseja mudar, porque a república ainda não é uma verdadeira 'res publica'.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Quem paga o pato?

Por mais incrível, que ainda possa parecer, existe por aí um tipo de apoiador de Bolsonaro, anti-petista até a medula, que ainda acredita que a corrupção foi inventada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), sobretudo pela sua ala lulista. Então para eles todo petista lulista, porque fazem questão de estabelecer essa distinção, pelo ódio que devotam ao Lula e a todo aquele que lhe é próximo ou simpatizante, tem má formação de caráter, pode cometer a qualquer momento algum delito, e que portanto, não são confiáveis. Tal foi a forma como esses apoiadores do Bozzo tiveram a cabeça feita pelos teóricos, ideólogos, articuladores e formadores de opinião da onda chamada de criminalização da política, onde todo político é ladrão, principalmente se for do PT. Um chavão similar àquele outro que diz: "bandido bom é bandido morto". Durante toda a campanha do golpe contra Dilma, e mesmo depois, durante o governo Temer, e até mesmo durante a última campanha política eleitoral, essa ladainha da demonização do PT e criminalização da política foi amplamente repetida e disseminada pelas redes sociais e grande mídia 'ad nauseum'. Além disso, alguns desses apoiadores do Coizo, não sentem o menor constrangimento de ainda ostentar nos para-brisas dos carros um adesivo pró-Bolsonaro, mesmo depois de quatro meses de seu líder estar a fazer um governo pífio, que afunda a cada dia, e afunda junto o país e seu povo, com o aumento exponencial do desemprego, o aumento no número dos moradores sem-teto, e outras mazelas mais. Os apoiadores do Bozzo são incapazes de qualquer autocrítica desse estapafúrdio apoio político para um líder incapaz, incompetente, que demonstra não ter a menor capacidade de estar à frente do governo de um país da dimensão do Brasil, e quem sabe nem mesmo do condomínio do prédio onde mora. Parece que nada disso importa para esse tipo de apoiador fanatizado, já que prefere tudo na vida menos o Lula, o PT ou qualquer projeto político do chamado campo popular. Consideram que tudo, que saia do campo político da direita brasileira, isto é, conservador nos costumes e liberal na economia, é comunismo. Nada para a gentalha, ou seja, nada para o povão, é o lema favorito deles. Costumam dizer, que já estavam fartos de ver tantos pobres nos aeroportos, a comer com a boca aberta e malvestidos. Portanto, em sua maioria, esses apoiadores fazem parte de uma galera de torcedores políticos, que não se movem para o centro político em nenhuma hipótese, estão com Bolsonaro e não abrem, e não adianta ninguém argumentar ou chamar para o debate de ideias, se recusam a ouvir. Não estão abertos para nenhum debate, diálogo, conversa ou colóquio. Quando pensei em falar algo sobre essa gente, fiquei matutando sobre como nomeá-los. Sei que poderia chama-los por vários nomes, como por exemplo, coxinhas, paneleiros, conservadores, reacionários, direitistas, ultradireitistas, sectário de direita, e até mesmo, fascistas, por que não? Quem sabe até chamá-los de nazistas. Nada disso surtiria o menor efeito, receberiam como xingamento, que na pior hipótese devolveriam em forma de insulto. Enfim, fazer o que?

domingo, 31 de março de 2019

Memórias de tempos ditatoriais

Volta e meia me pegava perguntando, quando aquilo, aquele regime militar, aquele barulho de coturnos e botas , iria passar, iria acabar. Foram 21 anos, que parecia não terminar nunca. Foram 21 anos de escuridão, de trevas, de tempo ruim, de censura draconiana contra a imprensa e também contra toda a cultura nacional. Contra o cinema, lembro de quando finalmente consegui assistir Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, depois de três anos de espera, com o filme aguardando liberação dos censores, para nossa surpresa, além de vários cortes em cenas importantes, o que deixava o filme sem sentido em certas horas, puseram também bolas/tarjas negras nos genitais dos atores, que apareciam nus em algumas cenas, o que tornava cômico o que não era para ser cômico. Sem falar em dezenas de outros filmes, que jamais conseguimos assistir. Como na época flertava um pouco com o teatro, procurava assistir quase tudo, não havia semana que não fosse ao teatro, e era duro, porque muitos diretores e dramaturgos, para fazer passar os seus textos pela censura, praticavam um verdadeiro malabarismo verbal, construindo metáforas sobre metáforas. O mesmo fenômeno também acontecia com os compositores da canção popular, a chamada MPB. Tínhamos de fazer um esforço extra, além da conta, de sempre buscar outros sentidos nas entrelinhas, no subtexto, no sentido do sentido. Quanto aos livros, era onde ficava a pior parte da estória, porque sabemos a importância da leitura, para qualquer jovem em formação, e não tinha escapatória, a censura era implacável. Livro com capa vermelha era recolhido assim que o livreiro o exibia nas vitrines das livrarias. Visando causar notícia e impacto midiático, os censores preferiam usar a estratégia de não visitar as editoras, a repressão da censura se dava na ponta, na distribuição, com isso causava um impacto maior, além do prejuízo financeiro no investimento. Se algum editor ousasse publicar um livro que tivesse no título a palavra “revolução”, iria se ver em maus lençóis. Não preciso dizer, que muita coisa boa e interessante deixou de ser publicada, e não me refiro apenas as obras de nítida conotação política. Só consegui finalmente ler textos marxistas em português depois do 25 de abril em Portugal, que com a revolução dos cravos, publicaram por lá muita coisa, e uma parte do material chegava aqui não sei como.  O ambiente dentro das universidades era o pior possível, primeiro porque não era permitido nenhuma atividade extracurricular, como por exemplo: grupo de teatro universitário, fazer jornais ou revistas, e muito menos cineclube. Os centros acadêmicos tinham sido todos fechados, foram interditados pela ditadura, era terminantemente proibido fazer política universitária. Segundo porque o nível dos mestres, em geral, era muito baixo, já que os melhores professores tinham sido expulsos, banidos, presos, ou estavam no exílio, quando não desaparecidos e mortos. Nesse particular, o pior cenário se dava na área de humanidades, lembro quando estudava na UERJ, tomei conhecimento do caso de uma turma de Ciências Sociais da UFRJ, que de 30 alunos, só sobrou um, expulsos quase todos portanto, no auge do terror de Estado, logo após o AI-5 e do famigerado Decreto-Lei 477. Como o ensino ministrado era completamente insatisfatório, os alunos com condições um pouco melhor, procuravam pagar aulas extras particulares àqueles professores, que haviam sido expulsos, fora do ambiente acadêmico claro. Foi assim, que fiz algumas cadeiras de filosofia com o saudoso mestre Roland Corbisier nos anos de 1975 e 1976. Para concluir, é preciso falar um pouco sobre os alunos infiltrados, ou seja, os agentes do serviço de informação, em geral militares, que eram postos entre os estudantes, com a missão de os espionar, descobrir e denunciar, para os órgãos competentes, possíveis esquerdistas. Eu mesmo tive o desprazer de conviver em minha classe na graduação de filosofia, com a presença de um capitão do exército desde o segundo ano, que inclusive chegou a ser promovido a major durante o curso, e chegou a se graduar. Fato como esse, gerava um desagradável clima de desconfiança e paranoia entre o alunado, porque em geral os estudantes não tinham como saber, quem de fato era o espião infiltrado. Foi um horror o regime de terror!

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sobre o irracionalismo contemporâneo




Para quem se pega, diante da atual situação política, com todo o retrocesso não liberalizante, completamente atordoado com toda a onda da chamada pós-verdade, que na verdade é a institucionalização da mentira, com todas as ‘fake news’ e congêneres. Além do que, e mais grave ainda, se avista na linha do horizonte, e por todo o canto uma absurda onda irracionalista e anti-intelectual, onde se despreza completamente todos os caminhos, que poderiam levar a algum esclarecimento racional de algum fenômeno através da lógica e da razão, e ao contrário é apresentado infinitas distorções linguísticas e lógicas. E de forma clara, não mão grande, hoje já não se precisa mais utilizar-se do expediente do eufemismo e do sofisma, pratica-se o estelionato e o vilipêndio às claras e à luz do dia, com o apoio da grande imprensa, nada escandaliza mais essa gente. Diante de todo esse quadro tenebroso da realidade política, cultural e ideológica do país, quem se sente afetado e sofre mais com tudo isso, quase entrando em desespero se pergunta: "o que está a acontecer?", já que não é esse mais o mundo onde viveu até então, haverá alguma saída, uma alternativa? Ou então só resta mesmo o exílio? Para onde ir? Calma! Não se exaspere, apesar de cenário tão desastroso ser muito semelhante com a realidade de algum canto qualquer desse planeta maluco em pleno século XXI, na verdade tudo isso se deu durante e após a crise de 1929, como aponta o excelente artigo do escritor alemão Robert Kurz, e se manifestou em lugares como Berlim, Nova York e até em Moscou. Faz parte de um determinado sistema econômico, que se torna extremamente irracionalista, em momentos de crise, mas não apenas nas crises, que o próprio sistema produz. Como apontado por Robert Kurz, revela que aconteceu até mesmo durante o estalinismo,  porque Stalin jamais abandonou o Capital, e implantou o fordismo em suas linhas de produção, em busca de um exagerado aumento da produção, numa economia ainda muito atrasada na ocasião em relação aos países de ponta da Europa ocidental e os EUA. Sempre existe a possibilidade de reversão, apesar do enorme quadro sombrio, que paira acima de nossas cabeças. Confiram aqui

sábado, 26 de janeiro de 2019

Ainda resta muito intolerância sexista na esquerda

O presente episódio do exílio voluntário de Jean Wyllys, ensejou uma série de comentários, críticas e análises da parte de muita gente, sobretudo de diferentes setores da esquerda, com veementes apoios e também muitas discordâncias contra a atitude tomada pelo deputado federal eleito pelo Psol do Rio. Não vou entrar no mérito de nenhuma dessas críticas, apenas quero pontuar um aspecto, que geralmente passa batido, quando a luta de narrativa entre a esquerda e a direita está pegando fogo como agora. Considero existir ainda um ranço heterossexista muito forte e, não diria homofóbico, mas pelo menos anti-gay, no universo da militância de esquerda, claro que não se compara ao universo da direita, porque a direita é grotesca, troglodita, ela quer eliminar, matar, exterminar a população Lgbt. A intolerância na esquerda é mais sutil, mais civilizada, é menos selvagem, mas mesmo assim ainda existe a presença  de grande intolerância no seio dela, e que se manifesta de várias maneiras. Antes de entrar propriamente nessa questão, é preciso considerar, não para justificar, porque nessa altura do campeonato quem ainda se comporta como tal, já deveria ter se tocado, o século 21 já caminhando para a sua terceira década, e gente que se considera avançado, revolucionário em muitas questões, não tomou consciência de seus atos. Claro, que quando se conversa com alguns, na teoria concordam com tudo, que é preciso mais direitos para a população LGBT, etc., mas no dia a dia, quando precisam responder na prática, não procedem da mesma forma com o que costumam dizer nos bastidores e nos corredores. E como se manifesta essa intolerância, na forma como evitam conviver com os amigos assumidamente gay no dia a dia, presencialmente. Fora disso, até mantém a relação boa virtualmente, com uma ou outra curtida de vez em quando, em algo compartilhado, que concordam. São cordiais quando encontram o amigo gay, mas jamais o convidam para jantar em suas casas, há uma reserva e uma distância, talvez a presença do amigo gay não seja uma coisa boa, para a visão dos filhos adolescentes, que estão crescendo. Claro, que estou me referindo a uma camada de esquerda classe média, ou seja, a pequena burguesia na linguagem marxista. Conheço alguns que são frontalmente contra levantar a discussão pela questão identitária e de gênero, luta nem pensar, segundo eles existem questões mais prioritárias na luta política e social. Sei que refletem em parte, e não poderia ser diferente, a sociedade em que vivem, mas poderiam fazer um esforço maior, se desejam realmente ampliar a própria consciência, em busca de combater os preconceitos e toda essa intolerância, que alguns ainda cultivam de forma clara, aparentemente inconsciente. É lamentável, mas sei que muitos deles ainda permanecem extremamente caretas, não foram capazes de acompanhar o avanço do mundo e se esclarecerem um pouco mais, são gente da ordem e acostumados a viver dentro de determinado padrão socialmente mais aceitável, transgressão apenas na teoria. O que acaba se refletindo na visível insensibilidade deles em relação ao grau de vulnerabilidade daquela população, de todos os riscos que correm, na ausência de garantias mínimas para a sobrevivência com mais dignidade. Tudo isso me lembra agora uma pergunta do médico paulista Drauzio Varella, feita há algum tempo atrás, que indagava: "faz diferença para você se o seu vizinho dorme com outro homem?" Se faz é bom se ligar.