Setores da classe média tradicional brasileira gostam de se colocar, de se pabular, como pertencentes ao chamado mundo ocidental, o que em parte revela, o desejo de ocuparem os postos dos antigos colonizadores; e também, por outro lado, de acreditar numa fábula. E que mundo ocidental seria esse? Seria a parte mais rica da Europa Ocidental e os dois países brancos mais ao norte das Américas. O que essa gente mais rica de nossa sociedade acha ou sente, não é tão relevante nessa história, mais importante que tudo seria também considerar o outro lado da moeda. O que os habitantes das sociedades opulentas do chamado mundo ocidental ACHAM das gentes de nosso mundo periférico, sobretudo aquele que inclui o México e todas as outras sociedades latino americanas? Todos sabem como os setores mais privilegiados de nossa sociedade gostam de se pavonear, cultivar e macaquear o modus vivendi europeu em suas vidas cotidianas, o que só favorece o tipo de mentalidade de “se sentir europeu” ou “como se europeu fosse”. Daí fica tudo mais fácil, quase um pulo, para se considerar sendo parte daquele chamado mundo ocidental, àquele pertencimento forçado. Donde fica muito claro e transparente, as razões que os levam a cultivar tantos preconceitos contra os brasileiros mais pobres em geral, com quem não se identificam nem um pouco, já que se julgam mais europeus que brasileiros. O Brasil e sua gente mestiça é sempre desvalorizado e desqualificado por parte de uma pequena elite integrante de sua população, justamente por aquela parte da população nacional que se julga europeia e pertencente ao chamado mundo ocidental. Acontece que eles acham tudo isso, e não se preocupam nem um pouco com o que os outros, os europeus verdadeiros e também os norte-americanos ricos pensam a respeito da questão. E parece que não estamos nada bem na foto, a percepção deles a nosso respeito não é nada favorável. Para início de conversa, logo de cara, afirmam que não fazemos parte do chamado mundo ocidental, ao criminalizarem a miscigenação realizada nos trópicos, coisa só possível em sociedades fora do padrão europeu de sociabilidade, e baseadas também em outras crenças absurdas e nem um pouco científicas a respeito do fenômeno da miscigenação brasileira. Só por esse fato: ‘a miscigenação’, já seria mais do que suficiente para sermos expulsos do fechado clube. Miscigenação, principalmente aquela encontrada no Brasil, considerada por alguns europeus como uma bizarrice étnica. Muitos europeus ainda cultivam uma certa intolerância contra o diferente. E o Brasil é muito diferente de qualquer país europeu em vários aspectos. Sem fazer qualquer avaliação de que seja bom ou ruim. Além disso, existem outras razões para excluir o Brasil enquanto sociedade, do mundo ocidental, como é o caso da sua cultura política, a maneira como a política é feita, apesar da recente conquista democrática após os 21 anos de ditadura militar de direita, que gostamos tanto de propagandear mundo afora. Com a instabilidade política da crise atual, aquilo que se pensava ser uma democracia mais consolidada e sustentável, se revelou o contrário. Os usos e costumes dos politiqueiros brasileiros é narrado em forma de crônica pelos correspondentes internacionais aqui instalados, que os consideram folclóricos, ou seja, mais uma coisa bizarra bastante peculiar a um tipo de sociedade completamente fora do modo e padrão europeu de ser. Além de muitos outros traços peculiares de sociedades como a brasileira, ex-colonizada e impregnadas de costumes e valores considerados totalmente fora do padrão europeu. E o mais curioso dessa história toda, é o paradoxo revelado pelo fato de uma elite dirigente europeizada, que está no comando do país, mesmo não estando temporariamente no poder político de estado; essa elite europeizada dirige o país da forma a menos europeia possível, reforçando com isso a percepção negativa de país fora do padrão, sobretudo no aspecto do déficit democrático, com a desigualdade, por europeus de verdade. Por que será?
Na forma de Crônicas e ensaios, abordo assuntos da Política e da Filosofia, e alguma invenção nos contos.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
segunda-feira, 28 de março de 2016
A noite de autógrafo
Para quem
não foi, eis uma chance de assistir a noite de autógrafo do livro "O
quarto Poder" do jornalista Paulo Henrique Amorim, realizada em Nova
Friburgo, em 17 de março de 2016. Um raro tipo de peça política, um evento
político grandioso e completo, um verdadeiro espetáculo, e para concluir a definição, realizado num
teatro. Apesar de todas dificuldades trazidas pela crise e engendradas por
aqueles que buscam o CAOS através da política. Essa crise possibilita também a
chance de assistir e ouvir coisas, como o recado político de PHA, e
não apenas o dele, porque ouvimos também opiniões de outras cabeças, como é o caso de Guilherme Estrella, apresentado por PHA como o descobridor do pré-sal. Nem tudo deu certo ou funcionou a contento, como a espera na fila para entrar na sala da conferência, porque foi surpreendente a presença de tanta gente, quase mil pessoas no evento, a fila ficou enorme, muita gente não conseguiu entrar e teve que voltar da porta. Houve também um episódio lamentável, já esperava passar por isso, foi a presença de um bando de baderneiros, uns dez gatos pingados fantasiados de milícia fascista, gritando palavras de ordem e slogans da "direita golpista", com bandeiras do Brasil e cartazes contra o governo, insultando quem estava na fila, mas foram completamente ignorados. O evento também possibilitou a chance de ver e rever amigos, gente com quem hoje em dia se fala
mais virtualmente ou por telefone do que ao vivo e a cores. Portanto ver e
rever gente, gente que a gente gosta, que dá prazer encontrar, e trocar
figurinhas, incluídas as figurinhas políticas, por que não? É muito bom. Foi
ótimo, adorei e depois saímos para jantar. Realmente um evento raro em Nova
Friburgo. Foi um momento bom, em meio a toda essa experiência vivencial da
atual situação política do país, que muitas vezes gera angústias e separa
amigos afins, amigos da vida toda, de anos, que só se afastam por radicalizar a
busca pela hegemonia no discurso do contra, só por isso. Uma pena, lamentável. Aliás
considero uma tolice, engajar-se na tarefa de hegemonizar, enquanto cidadão
individual, um determinado discurso político coletivo. Um discurso coletivo, um verdadeiro pacote pronto, com
conteúdo determinado em forma de roteiro, com começo, meio e fim; recebido via
internet ou através de outras mídias, dominantes ou não. Isso deveria ser
tarefa do partido político, cada partido com seu credo político e a sua luta
correspondente. Agora o cidadão individual não é obrigado a pensar da mesma
forma que outro, qualquer outro, sob ameaça e a chantagem do rompimento de
relações. Porque isso é coação, e coação não é verossímil com o regime
democrático. Não é legítimo querer me convencer na pressão e no grito a respeito de qualquer coisa.
Não é uma prática boa e saudável para a convivência. É uma tática fascista, e
como tal precisa ser desmascarada e denunciada aos quatro cantos. Para
concluir, aqueles que desejarem assistir aos outros dois vídeos de continuação
do evento, estão disponibilizados no mesmo site deste.
sexta-feira, 25 de março de 2016
O nível do Congresso
Dilma Rousseff e os
seus adversários do Congresso Nacional. Agora entendi porque eles têm tanta
raiva dela. Se tornou consenso, que o atual congresso eleito nas eleições
gerais de 2014, é o pior de todos os tempos. Nível intelectual e moral dos
deputados o pior possível, é um tal de bancada disso e bancada daquilo, são aquelas
gangues do agronegócio, ou bancada ruralista liderada no senado por Ronaldo
Caiado. As vezes dá a impressão que os antigos lobistas do Congresso se tornaram todos congressistas. Se reinventaram? Ou continuam lobistas na pele de deputado? A célebre e famosa bancada BBB: boi, bíblia e bala. Além dos ruralistas do gado, tem a bancada evangélica do Marco Feliciano, lembram dele? E a bancada da
bala, que em sua grande maioria são ex-policiais da força pública de SP, que se
tornaram políticos, e o restante da bancada da bala, representam os interesses da indústria de armas. Durante a
ditadura militar havia um ex-policial, que ficou célebre pela truculência, era a cara da
direita, Deputado Federal por São Paulo ERASMO DIAS, que foi membro da repressão política no estado. Como é o caso agora do
ex-comandante da ROTA Paulo Telhada(PSDB-SP), que é um radical de direita
extremada, defende as ações da PM, contra qualquer acusação ou denúncia de abusos praticada por policiais. Coloca-se como se fosse advogado de defesa da PM-SP no Congresso, para quem bandido bom é bandido morto. Tudo dito abertamente e de forma escancarada. A primeira vez que assisti na TV Câmara, não
acreditei no que estava ouvindo, fiquei chocado com a violência verbal, mas
existem outros do mesmo nível ou pior. Só estão lá, infelizmente, postos pelo voto de milhares de eleitores brasileiros, que acharam por bem escolher homens desse naipe como seus representantes legais, sem falar na força da grana angariada junto ao setor econômico financeiro para as campanhas eleitorais, então os empresários financiadores têm também a sua parcela
de responsabilidade. Conta-se nos bastidores vários motivos para o ódio dos políticos do PMDB contra Dilma. Todo mundo sabe que faz parte do DNA do PMDB, ser fisiológico e estar atrelado ao poder, embora o partido jamais tenha eleito um presidente, sempre esteve agarrado ao poder, aliando-se a presidentes de diferentes tendências e cor ideológica. A presidente depois de eleita em 2010 com o apoio deles, e sabendo dessa fama do partido, decidiu acabar com a chamada "porteira fechada", que era o mecanismo de ministros nomeados ter amplos poderes para nomear quem quisesse para todos os cargos da pasta. A partir de então, o partido indicava um nome para o ministério "X", mas seria uma espécie de rainha da Inglaterra, não teria poderes para muita coisa, todos os postos subordinados da pasta ficariam sob a responsabilidade da presidente. Tá bem, vocês me indicaram o nome de um safado, eu nomeio sem problemas, mas ele não vai mandar em tudo, será apenas mais um ministro, vai fazer as declarações protocolares necessárias em nome da pasta que representa, e falar com a imprensa quando preciso. Nada de excessivo protagonismo desnecessário, que só faz barulho midiático. Com isso o clima em Brasília começou a ficar ruim, Dilma era acusada de ser uma tecnocrata sem nenhuma habilidade política para lidar com os usos e costumes dos políticos. Pois muito bem, durante todo o primeiro mandato da presidente, ela
praticamente governou com medidas provisórias, o Congresso era só delongas, e
perdeu o bonde da história, produziu muito pouco do ponto de vista legislativo.
O segundo mandato, estamos a assistir os passos, elegeram com o apoio da
oposição para a presidência da Câmara o Deputado Eduardo Cunha, de ficha policial por demais
conhecida. E desde os primeiros dias, os deputados liderados por Cunha,
não fazem outra coisa que não seja: criar dificuldades, problemas, óbices, pautas bombas, ameaças, chantagem etc. Gente que se instalou no comando do aparelho político de Estado, do legislativo portanto, como se estivesse governando a máfia napolitana. É tudo o que a gente tem assistido do começo de 2015 até agora. Antes o país
seguia o seu rumo através das medidas provisórias da presidente, e agora que o Congresso só
pensa no Impeachment, semi paralisou o país e o foco principal, o objetivo
maior é o caos. Salvo raríssimas exceções esses políticos não pensam nem um pouco no país, em lutar por um país melhor, não, nada disso, pensam só em suas carreiras individuais, nos votos a conquistar, em como fazer
para angariar mais apoio político, financiamento, etc. Estamos a assistir como estão negociando as mudanças de partido, a "mobilidade partidária" novo eufemismo na praça dos três poderes, e as justificativas para tal. Para ajudar a governar
são completamente inoperantes, agora para atrapalhar são muito eficazes, estamos
assistindo tudo ao vivo e a cores. Como não faziam quase nada na outra legislatura, eram inoperantes, quase não serviam para nada. Agora, na nova legislatura, atacam a presidente o tempo todo por outras motivações, é verdade. Mas não custa nada, brincar um pouco e acreditar na charge ilustrativa do artigo, que diz: "Ou tiramos ela ou seremos extintos". Faz sentido.
O QUE A DIREITA PRECISA ESCONDER?
Certos setores da direita político ideológica não gostam nem um pouco da distinção entre esquerda e direita, preferem considerar em público, que a distinção entre esquerda e direita não existe mais no mundo de hoje, que não tem mais importância nem relevância alguma. E qualquer discussão que se tenha com esses elementos, em geral não leva a lugar nem a conclusão alguma. Porque os adeptos dessa posição radicalizam o discurso negativista de tal forma, aprofundam a negação ao extremo, que a discussão não evolui, trava, se imobiliza e acaba vazia e sem conteúdo. Depois matutando a respeito, e quase sem querer, surgiu uma luz sobre a razão do negativismo radical. É claro, que hoje em dia, muitos já conseguiram desfazer o enrustimento direitista, superaram o medo de ser acusado de direitista, de receber a pecha de ser de direita, como se uma mancha os tivesses atingido em cheio. E assim conseguiram sair do armário político ideológico de forma definitiva, alguns deles se revelando até fascistas, botam as caras à mostra e assumem às claras ser de direita sem problemas. Mas voltando aos outros, àqueles que negam a existência da polaridade esquerda e direita, ocorreu-me que esses deveriam ter razões muito fortes, para ainda precisar ficar batendo na tecla da negação, em ficar negando sempre, e uma negação com veemência. Por que? E o que precisam tanto esconder? Camuflar, ocultar e escamotear? Algo similar ao que ocorreu durante a segunda grande guerra na Europa, onde alguns judeus, por temor da deportação e a suposta morte em seguida, muitos deles mentiam ou escondiam o credo ou a origem deliberadamente, para escapar a um destino pior. Não é o caso agora com os nossos direitistas envergonhados, alguns daqueles que ainda precisam negar o credo direitista hoje em dia, justificam a necessidade de continuar negando, dando como razão e argumento, que não se consideram mais de direita, porque aquela visão da direita política existente no século passado não existe mais no século atual. Como se o tempo por si só, fosse capaz o suficiente, de virar páginas de conflitos sociais seculares jamais solucionados. Diante de tudo que foi apresentado, a indagação que precisa ser feita, é que deve haver motivos muito fortes, motivos inconfessáveis, para a necessidade desse ocultamento infindo. Pois se precisam esconder tanto, que ainda são adeptos e partidários de doutrinas conservadoras e reacionárias, que dominam a pauta da direita política de hoje e de ontem, é porque precisam ocultar de todas as formas, que são também outras coisas incluídas no cardápio da direita ao longo de todo o tempo, tanto ontem como hoje, e que continuam ainda vigorando no mundo de hoje, que são muito vergonhosas e provocam enorme embaraço, quando divulgadas ou assumidas. Daí a imensa necessidade em "esconder o racismo" por exemplo; em camuflar em público a homofobia de mil caras, que sentem e manifestam privadamente; em escamotear a xenofobia contra nativos de outras regiões do país; em esconder que praticam intolerância religiosa contra cultos afros, e que incentivam perseguições contra os adeptos de outros credos minoritários; em precisar ainda ocultar do grande público todo o preconceito contra os mais pobres, e contra qualquer forma de diferença. Enfim poderia ficar aqui a ocupar todo o tempo possível e imaginável, a arrolar todos os traços e peculiaridades ideológicas, que possuem as evidentes digitais da direita política e também fascista, que forma o caráter e pauta o comportamento dos seus membros confessos ou não, mas prefiro parar por aqui.
assuntos relacionados:
http://cirotextos.blogspot.com.br/2010/11/direita-nao-existe-mais-sera.html
A foto acima exibida trata-se de manifestação de militantes de direita no dia 13-03-2016 na cidade de São Paulo, onde simulam a cena do enforcamento do ex-presidente Lula da Silva e da atual presidente Dilma Rousseff.
A foto acima exibida trata-se de manifestação de militantes de direita no dia 13-03-2016 na cidade de São Paulo, onde simulam a cena do enforcamento do ex-presidente Lula da Silva e da atual presidente Dilma Rousseff.
UM FILME MUITO IMPORTANTE POLITICAMENTE
O ano é 1961, temendo que uma nova revolução cubana voltasse a acontecer em mais algum país latino americano e tendo tomado conhecimento da existência do deputado Francisco Julião e sua luta pela criação das ligas camponesas no estado de Pernambuco. A CIA enviou uma equipe de TV, para realização de um documentário sobre o que se passava naquele momento em Pernambuco. Há indícios de que a própria diretora do filme: "Helen Rogers" recebia remuneração como agente da CIA. O filme é falado em língua inglesa naturalmente, mas no link postado nos comentários há uma relação das legendas em português. A miséria vivida pelos trabalhadores rurais exibida na película é de cortar coração, mas explica de forma enviesada o que levou logo depois ao golpe de 1964 e a consequente ditadura militar de direita que durou 21 anos. Porque as nossas classes dirigentes da época, tal como hoje em dia, não queriam avanço social nenhum, e assim como hoje denunciavam haver corrupção no governo central, mais como uma espécie de cortina de fumaça, porque os reais objetivos eram outros. E quais eram esses objetivos? Era derrubar o governo Jango através de um golpe de Estado, utilizando para isso as forças armadas nacionais. E também impedir o avanço social e mais direitos civis para os mais pobres da sociedade, impedir portanto MAIS CIDADANIA. Não queriam as reformas de base, que Jango prometera implementar no comício de 13 de março de 1964 realizado na Central do Brasil no Rio de Janeiro, que apregoaram em manchetes garrafais da imprensa aliada, que Jango estava levando o Brasil para o comunismo. Hoje qualquer menção que se faça a respeito das denúncias feitas por Edward Snowden, sobre a ingerência do serviço de informação dos EUA (NSA) nos assuntos internos dos países da América Latina; é rechaçado pela direita política de imediato, com acusações do tipo, que tudo não passa de ilusão e teoria da conspiração. Assistam ao pequeno documentário, e depois cheguem às suas próprias conclusões, se havia interferência americana em nossos assuntos, ou não. Além de tudo, todo o vazamento feito pelo Wikileaks, já é assunto superado, após o próprio Departamento de Estado americano liberar toneladas de documentos secretos, que confirmaram as suspeitas reveladas nos vazamentos. Então tudo isso hoje já é ponto pacífico. Muito embora as consequências de toda a espionagem estadunidense sejam muito severas para o nosso país, gerando crises internas, o travamento de nossa economia e instabilidades de toda sorte, infelizmente.
http://jornalggn.com.br/blog/urariano-mota/descoberto-o-filme-que-o-brasil-nao-podia-ver-por-urariano-mota
PS.: Na fota exibida a figura de paletó escuro no centro da foto é o líder da Ligas Camponesas, já falecido, Francisco Julião.
PS.: Na fota exibida a figura de paletó escuro no centro da foto é o líder da Ligas Camponesas, já falecido, Francisco Julião.
quinta-feira, 24 de março de 2016
Sectários e dogmáticos
Tenho ouvido queixas de amigos de classe média, que
mencionam uma mudança brusca no comportamento de amigos contrários ao atual
governo, quando esses notam que os amigos favoráveis ao governo não mudarão de posição, que não
há nenhuma chance de pensar igual. E é um comportamento muito revelador por
outro lado. Apesar de contrariar as reais intenções de não querer revelar nada nunca. E como esse comportamento é movido por sentimentos, é quase impossível, que não se
manifeste. Como se sabe, tudo que se manifesta, aparece, emerge, vem à tona, e tudo que aparece é fenômeno, e os
fenômenos não apenas aparecem, como também costumam se revelar em suas aparições, é da natureza da aparição. E
como se materializa essas manifestações fenomênicas? É muito curioso, porque nota-se de forma
repentina, de uma hora para a outra, uma súbita alteração na qualidade da
relação. A relação afetiva, que antes existia, toda a cordialidade, a
cumplicidade e simpatia recíproca que rolava, desaparece quase em sua totalidade assim de repente, deixa de existir, não acontece mais. É verdade que vez ou outra, ainda se encontram na rua meio que por acaso,
quer dizer se esbarram, porque encontro mesmo para valer, pelo que tudo indica não rolará
mais. Antigos grandes amigos de boa ou ótima convivência passam a se evitar, de uma hora para a outra, como
tivessem se tornado estranhos sem mais nem menos. Tudo se avoluma, cresce, quando se
estendem também às redes sociais essa atitude comportamental, nenhum “like” mais é dado em nada do outro, nem tampouco comentário algum em coisas compartilhadas, o oposto do que era antes, contam em tom queixoso os meus amigos, como se estivessem surpresos com aquela situação incompreensível. E
que nas raras oportunidades em que se esbarram, quase nenhum diálogo mais rola,
embora não seja tempo o empecilho impeditivo, pois já aconteceu de permanecerem juntos por
até uns trinta minutos ou mais. É como se houvesse um clima ruim e tenso no ar entre ambos nesses encontros casuais. Fala-se
muito nessas raras ocasiões, mas é como se fosse um diálogo de surdos, cada
qual em seu monólogo, com a sua verdade particular. É notável, que os amigos cooptados
pela mídia para odiar o governo atual, que mudaram o comportamento em relação aos velhos amigos, que aderiram à direita política, NÃO QUEREM DIÁLOGO ALGUM. Deixam
isso bem claro logo de cara. Postam-se como se fossem os donos da verdade, e quem não aceita
pensar da mesma maneira deve estar "equivocado", ou por fora, não merece o respeito, nem é considerado mais amigo. Demonstram profundo desapontamento ao perceber que alguém próximo continua a apoiar “esse governo corrupto”, repete meu amigo lamentando sem entender o porquê. "Como é que pode?" Indagam-se
decepcionados os coxinhas, quando se dão conta da impossibilidade em convertê-los para a cartilha do contra. Tem um detalhe nessa história toda, que me chama atenção, o fato dessa mensagem se manifestar da mesma forma
em praticamente todos eles, o discurso ideológico repetido pelos coxinhas parece algo decorado de uma cartilha, é um discurso coletivo de intolerância, que contaminou a todos de forma massiva, é o mesmo discurso de sempre e os mesmos chavões padronizados. Logo a origem, a fonte deve ser a mesma. E
por último, alguns estão se valendo agora de uma pesquisa que vazou de origem
desconhecida, que revela haver 68% de apoio ao impeachment. O que já é
suficiente, para o meu amigo se sentir um lixo ainda maior, sob um certo olhar arrogante.
O jeito de ser democrata
Viver sob o
regime democrático não é fácil, em primeiro lugar, porque não existe nenhuma
democracia concluída, pronta e acabada, é um regime por fazer e construir,
tijolo a tijolo, de aperfeiçoamento contínuo e permanente. Quem disser o
contrário, certamente estará querendo ludibriar. É bom sempre ter ao alcance as
palavras do Leviatã de Thomas Hobbes, de que “o homem é o lobo do homem”, para
nas horas mais difíceis encontrar forças para buscar compreender aquele momento
e poder ultrapassá-lo com sabedoria. Em segundo lugar não é fácil também,
porque nem sempre aquele projeto político do qual se é partidário, foi
escolhido pela maioria, é o projeto vencedor do momento, ou hegemônico. Quando
um grupo político perde uma eleição, seus eleitores se sentem derrotados e são
lançados de imediato na oposição. Quem viveu sob a ditadura militar brasileira,
um longo período de 21 anos, que parecia nunca ter fim, SABE muito bem o que é
ser oposição, sabe como é duro viver sob o autoritarismo e sem a menor chance
do contraditório, com aquela “democracia” de fachada, para inglês ver, um
eterno jogo de faz de conta. Alguém poderá dizer que ser oposição durante um regime
democrático é muito diferente do que diante de um regime autoritário e
ditatorial. Claro que é, não tenha dúvida, mas só o menciono, para mostrar a
dimensão do gosto amargo de vivenciá-lo, trata-se do exagero de ser oposição,
apenas para chamar a atenção do leitor. Então, como estava dizendo, ser
oposição não é fácil, todo mundo concorda com isso. Bem, deixando de lado os
partidários dos regimes de força e ditatoriais, os democratas ou todo aquele
que gosta, prefere e luta, para viver em regime democrático, sob as regras de
uma constituição, que assegura uma série de direitos e deveres para todos os
seus cidadãos, em que todos são iguais perante as leis. É preciso antes de
tudo, dizer que nem todo mundo é democrata do mesmo jeito. Uns são mais
afetados, tocados e sensibilizados por questões morais, quando ouve que alguma
coisa errada foi cometida por uma autoridade, fica indignado, com razão claro,
levanta da poltrona ameaçando ir para a rua protestar contra. Outros já ficam
mais indignados contra a injustiça social, a desigualdade e a miséria de
muitos, que os afeta a ponto deles também desejarem ir para a rua em
manifestação contra aqueles disparates sociais, pressionar para que seja encontrada
soluções. E assim, o eleitor contribuinte poderá ser mais afetado
por isso ou por aquilo, é legítimo que assim seja. Agora se formos estabelecer
uma escala de prioridades, aquilo que é mais essencial numa democracia, o que é
mais urgente que seja atendido, porque é da essência da democracia. É lógico
que é a desigualdade. Porque se considerarmos que a democracia se caracteriza
como o governo de IGUAIS, qualquer desigualdade existente irá corromper e corroer
os valores democráticos daquela sociedade. Portanto, urge tentar reduzir o
tamanho da desigualdade o quanto antes, é a prioridade das prioridades. E o grupo
político que sinaliza estar a caminho disso, acaba se caracterizando como mais
democrático consequentemente. Por outro lado, há quem indique uma certa escala
de valores para essa ou aquela ação, que ajuda a sinalizar as prioridades a
serem escolhidas no futuro imediato. Por exemplo, o eleitor que só se levanta
da poltrona movido, ou afetado por questões de natureza morais, por
sentimentos, do isso pode ou isso não pode, ou “que absurdo!”, ou de outro: “ah,
como estou chocada!”. Na verdade não é a maneira mais nobre de ser afetado pela
coisa pública, os sentimentos são legítimos e verdadeiros, mas não deveria ser
o motor principal a nos fazer levantar da poltrona. Mais nobre é usar a mente
com inteligência, refletir e pensar, em busca de que seja encontrada
soluções, emergenciais ou não, para reduzir o tamanho da desigualdade,
da distância social entre uns e outros, porque só assim estaremos no caminho de
ser uma DEMOCRACIA para valer com mais cidadania para todos, e não apenas para alguns.
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