segunda-feira, 14 de março de 2016

Um certo olhar



Um certo olhar

Assistindo um documentário sobre a biografia de Bob Dylan, observei o ator, que fazia o músico, dizer numa fala do roteiro: "quando se tem amor e sexo envolvido, fica muito difícil saber porque, e como, as coisas acontecem". Resolvi que seria bom antecipar a volta para casa, fazer o check-out do hotel mais cedo, encerrar a conta e entregar a chave do quarto antes do previsto, contrariando a intenção inicialmente prevista de almoçar com umas amigas antes do retorno definitivo. Ao entrar no saguão principal do hotel vindo do quarto, já com as bagagens e a chave na mão, dei de cara com Tiago sentado no sofá da sala de espera. Encontrei o seu olhar enquanto me movimentava para entregar a chave na recepção, e não foi nada bom o que vi. Um olhar feio, cheio de maldades e ondas ruins. É muito difícil descrever esse tipo de impressão, pois envolve uma série de sentimentos complexos, num campo das relações humanas bem particular, que é quando verdadeiramente se chega o mais próximo possível do outro, independente de que haja correspondência ou não no mesmo nível e na mesma direção. Na hora passei batido, apenas registrei o olhar negativo e segui em frente, e logo avistei as amigas sentadas um pouco mais adiante em volta de uma mesa ainda do café da manhã.

Ao sentar-me, servi-me de um bom copo de suco de laranja e me pus a falar e conversar, uma conversa que precisava fazer "tête à tête", na busca de compreender e saber como se deu a morte de um amigo comum recentemente, o que só havia feito até então por telefone, e aquela era uma boa e rara oportunidade. Durante a conversa, confesso que permaneci meio dividido, aquele olhar enviesado não me saía da cabeça, sentia que precisava terminar a conversa e partir, botar o pé literalmente na estrada. Coisa que interferiu o tempo todo no bate papo. Agora, depois de tudo que se deu, posso reforçar a convicção com segurança, que havia uma dose de ódio muito forte naquele olhar. Mas só depois de algum tempo e com o desdobramento posterior, é que posso realmente me dar conta da força expressiva daquele olhar, no sentido de que era uma coisa mais voltada para o lado negativo, o lado mau. Todos os nomes que existem para tal sentimento, dentre os quais: raiva, ódio, rancor, mágoa, ressentimento, etc., em diferentes tonalidades e matizes era o único recurso que tinha em mente, o recurso linguístico, precisava nomear aquele olhar, e dessa forma fazia um esforço tremendo em busca de entender o que estava rolando, saber porquê. Embora houvesse um detalhe curioso nessa história e nesse olhar, foi descobrir que o corpo não acompanhava o olhar, não estava em sintonia com ele. É muito louco poder dizer, que nesse caso o corpo contava muito pouco, ou quase nada. Por outro lado, sabemos que a dicotomia entre um estado de espírito e outro, isto é, entre amor e ódio seja ilusória, porque não se deixa um sentimento e entra em outro assim de estalo, de supetão, como quem muda de veículo no transporte público. Entre um sentimento e outro há toda uma zona grande de diferenciação, com pequenos e sutis graus de diferença tanto numa como na outra direção, sentido e rumo. Mas naquela hora, sentado no sofá, não lembro mais se assistia tevê ou não, passar pelo saguão e encontrar um olhar com toda aquela carga negativa, foi terrível, muito embora na hora tenha conseguido me manter firme e controlar bem a situação. Outro ponto marcante nesse episódio foi descobrir o quanto nosso agir, as escolhas e tomadas de decisão imediatas, não são deliberadamente conscientes e racionais, de onde deriva muitos arrependimentos futuros por conta de súbitas e intempestivas ações. Quem sabe uma pesquisa futura feita com afinco, venha revelar: o quanto de mitificação da realidade existe nessas súbitas tomadas de decisão e escolhas. É possível algum autocontrole? É claro que algum nível de controle é possível. Agora isso vai depender de uma série de fatores, como por exemplo, idade, sexo, orientação, nível econômico e educacional, além de escala de valores, etc., e até mesmo o momento, que se está a passar, e toda conjuntura vigente. Como costumamos flutuar entre momentos de euforia e depressão em variados graus, essa volatilidade emocional e afetiva também influi e afeta o nível de consciência das escolhas e decisões tomadas. O que pode levar muitas vezes, se tomar as decisões mais estapafúrdias possíveis. Posso garantir que fica muito prejudicada a nossa capacidade de pensar e refletir nessas horas. Ainda não consegui descobrir, nem sei por que cargas d’água, aquilo tudo que passou naquela manhã, não ajudou a acender a luz amarela de advertência, restou apenas um breve registro na memória para uma análise posterior, só isso e apenas isso. A ponto de não ser suficiente nem para determinar as minhas tomadas de decisões seguintes, nem ao menos fui capaz de me tornar mais prudente dali em diante, mais vigilante e diligente. Pelo contrário, me mantive praticamente do mesmo jeito, que vinha me mantendo até ali, não relaxei totalmente e nem tampouco fiquei tenso. Apenas tomei a decisão, que era hora de voltar, entrei no carro em direção à Nova Friburgo sentido Rio das Ostras, com a determinação que precisava economizar um pouco de gasolina e cortar caminho, reduzindo a quilometragem da viagem de volta, evitando um grande trecho da BR-101, entre o trevo de Macaé e Rio Dourado, onde tem um intenso tráfego de grandes carretas e em consequência muito risco de acidente.




sábado, 12 de março de 2016

Crenças políticas e interesses de uma certa imprensa

Escolher que notícia, imagem ou fato merece ter mais ou menos visibilidade, maior tempo de exposição, e o tipo de exploração, que será feita, nos veículos de comunicação de massa, isto é, nos principais jornais, revistas, emissoras de rádio, canais de tevê aberta ou paga, e até na internet. Escolha que é feita por gente de carne e osso, gente como a gente, só que envolvidos e engajados em outros interesses, preferências políticas, que pode ter o rabo preso com alguém, ou que deve favores a A ou B, ou que seja mais liberal na economia, enfim gente que tem uma ideologia. E portanto quando explora a divulgação de um fato, carrega nas tintas, ou prefere dar destaque maior a uma determinada notícia ou fato em detrimento de outra, está a fazer política e essencialmente movida por ideologia, por uma crença ideológica não importa qual. Mesmo não querendo fulanizar, é impossível não lembrar o papel que cumpriu as Organizações Globo em sua relação carnal com a ditadura militar de direita de 1964. Nascida um ano após o golpe, a Globo é filha primogênita da ditadura, ou o autêntico filho, como alguns gostam de falar. Cresceu, fortaleceu-se, criou massa muscular e enriqueceu, sob os auspícios da ditadura militar de 64, de quem acabou se tornando uma grande aliada política e ideológica. Quando indagamos hoje: “em que mãos estão os nossos maiores veículos de mídia?”. A resposta joga de imediato um foco de luz sobre o ideário dessa gente, suas crenças políticas e valores. Quem apoiou a ditadura militar de extrema direita, que nos governou de 64 a 85 do século passado, apoiou tanto que acabou por se tornar uma espécie de porta voz oficial do regime militar. Que se recusou a noticiar e mostrar todo o movimento pelas "Diretas já" em 1984, como se fosse um fato invisível para os olhos do homens da Globo. E nos anos pós ditadura trabalhou intensamente e com afinco pela derrota de Lula e a favor de Collor em 1989, e também por toda grade televisiva e suas pautas que exibe em seus principais veículos. Ninguém tem dúvida da posição político-ideológica dos principais dirigentes da Organização, é tudo muito claro e quase transparente, mesmo que essas posições não sejam jamais explicitadas oficialmente. Eles não precisam vir a público afirmar se são isso ou aquilo. A prática política dessa gente, suas escolhas mostram, exibem e deixam claras as suas posições. Tudo isso me faz recordar de um programa que existe na Globonews, canal pago da Organização, apresentado e ancorado por William Waack aos sábados, hoje não vejo mais, aliás já deixei de assistir há algum tempo, mas posso testemunhar pelo período que assisti, que mostra como os dirigentes do programa ignoram que existe o contraditório, porque jamais faziam os episódios com gente que fosse contra e algum pelo menos a favor do governo para estabelecer um nível mínimo, que fosse, do contraditório. Não, nunca, jamais. Eles sempre produziam o programa em forma de painel sobre um tema específico com três comentaristas convidados, alguns quase figurinha carimbada, porque sempre participavam. E haja bater no governo durante todo o tempo de duração do programa. Isso mais de uma vez por semana, com as repetições que o canal disponibilizava daquela emissão em outros horários, era quase uma overdose de notícias negativas contra o governo, e também uma tortura mental para os assinantes que não estavam de acordo com nada daquilo. Era uma espécie de cartilha política sendo passada para a população o tempo todo, de formatação tipo lavagem cerebral da pior espécie. Quando mudava para o papel impresso, o jornal, encontrava sempre com a coluna da jornalista Miriam Leitão, outra que deixei de ler. Quando chegava nessa coluna, sempre dava uma passada rápida d’olhos para ver do que se tratava, e por mais incrível que possa parecer, nunca vi essa senhora publicar alguma coisa favorável ao governo, uma nota que fosse de algo positivo, nada, era só doses diárias com peso cavalar de puro baixo astral. Nem durante os anos de bonança do período Lula,  ela mudou, continuou falando mal do governo durante esse tempo todo, nunca entendi porque não se fatiga nunca de fazer isso, bater no governo, embora saiba que além disso ela fez outros trabalhos, escreveu e publicou livros, etc. E como é provável que ela tenha muitos leitores,  o que aumenta a sua responsabilidade, e também o seu ibope e a sua influência ideológica sobre um grande número de pessoas, que também são eleitores. É claro que essa dose cavalar de crítica e intriga política, acaba por pesar muito contra a imagem de qualquer governo, queima o filme, provoca desgaste, aquele negócio de “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, é exatamente isso. Se acrescentarmos também alguns erros do próprio governo, pronto, está feito o cenário perfeito, favorável e muito atraente para os golpistas. Além da participação de inúmeros outros comentaristas tanto de política como de economia, fazendo e aumentando a carga do contra. Em relação a economia e a política, praticamente não existe fronteira entre as duas ciências, é muito tênue a linha entre ambas, nos primórdios a ciência econômica era conhecida como: "economia política". É unânime e constante a repetição da mesma cartilha ideológica, a mesma lavagem cerebral. Então o resultado é isso, que estamos a assistir cotidianamente, gerando uma crise política que contamina a economia e acaba por afetar toda a população, prejudicando MAIS como sempre os mais pobres. Aliás o principal alvo dessa cantilena de direita, parece ser a figura da presidente que é constantemente atacada e demonizada, mas o alvo principal a atingir são as políticas públicas de transferência de renda para os mais pobres através de vários programas sociais, como a política de cotas para negros, um programa extremamente satanizado. É isso que querem mudar de fato, a figura da presidente é apenas simbólica, ela não é tão incompetente como a mídia apregoa diariamente e os eleitores mais simples acabam por acreditar. E também por toda aquela gente mal vestida, que emergiu e hoje prefere viajar de avião, e que é extremamente ridicularizada nas redes sociais. Toda essa política favorável aos mais pobres não é nem um pouco bem vista. É isso que está em jogo, além também da questão dos 'Brics' e da inserção do país no mundo,  não é a corrupção em absoluto. A pauta da corrupção é só uma fachada, uma espécie de cortina de fumaça, para desgastar mais ainda a imagem do atual governo. Quem conspira a favor do golpe para tirar a presidente, é gente que não gosta nem um pouco da política favorável aos mais pobres desse governo, eles querem mais do que nunca mudar e acabar com tudo isso. Que não se tenha nenhuma ilusão a respeito disso e nem a menor dúvida.

Crenças políticas e interesses de uma certa imprensa

Escolher que notícia, imagem ou fato merece ter mais ou menos visibilidade, maior tempo de exposição, e o tipo de exploração, que será feita, nos veículos de comunicação de massa, isto é, nos principais jornais, revistas, emissoras de rádio, canais de tevê aberta ou paga, e até na internet. Escolha que é feita por gente de carne e osso, gente como a gente, só que envolvidos e engajados em outros interesses, preferências políticas, que pode ter o rabo preso com alguém, ou que deve favores a A ou B, ou que seja mais liberal na economia, enfim gente que tem uma ideologia. E portanto quando explora a divulgação de um fato, carrega nas tintas, ou prefere dar destaque maior a uma determinada notícia ou fato em detrimento de outra, está a fazer política e essencialmente movida por ideologia, por uma crença ideológica não importa qual. Mesmo não querendo fulanizar, é impossível não lembrar o papel que cumpriu as Organizações Globo em sua relação carnal com a ditadura militar de direita de 1964. Nascida um ano após o golpe, a Globo é filha primogênita da ditadura, ou o autêntico filho, como alguns gostam de falar. Cresceu, fortaleceu-se, criou massa muscular e enriqueceu, sob os auspícios da ditadura militar de 64, de quem acabou se tornando uma grande aliada política e ideológica. Quando indagamos hoje: “em que mãos estão os nossos maiores veículos de mídia?”. A resposta joga de imediato um foco de luz sobre o ideário dessa gente, suas crenças políticas e valores. Quem apoiou a ditadura militar de extrema direita, que nos governou de 64 a 85 do século passado, apoiou tanto que acabou por se tornar uma espécie de porta voz oficial do regime militar. Que se recusou a noticiar e mostrar todo o movimento pelas "Diretas já" em 1984, como se fosse um fato invisível para os olhos do homens da Globo. E nos anos pós ditadura trabalhou intensamente e com afinco pela derrota de Lula e a favor de Collor em 1989, e também por toda grade televisiva e suas pautas que exibe em seus principais veículos. Ninguém tem dúvida da posição político-ideológica dos principais dirigentes da Organização, é tudo muito claro e quase transparente, mesmo que essas posições não sejam jamais explicitadas oficialmente. Eles não precisam vir a público afirmar se são isso ou aquilo. A prática política dessa gente, suas escolhas mostram, exibem e deixam claras as suas posições. Tudo isso me faz recordar de um programa que existe na Globonews, canal pago da Organização, apresentado e ancorado por William Waack aos sábados, hoje não vejo mais, aliás já deixei de assistir há algum tempo, mas posso testemunhar pelo período que assisti, que mostra como os dirigentes do programa ignoram que existe o contraditório, porque jamais faziam os episódios com gente que fosse contra e algum pelo menos a favor do governo para estabelecer um nível mínimo, que fosse, do contraditório. Não, nunca, jamais. Eles sempre produziam o programa em forma de painel sobre um tema específico com três comentaristas convidados, alguns quase figurinha carimbada, porque sempre participavam. E haja bater no governo durante todo o tempo de duração do programa. Isso mais de uma vez por semana, com as repetições que o canal disponibilizava daquela emissão em outros horários, era quase uma overdose de notícias negativas contra o governo, e também uma tortura mental para os assinantes que não estavam de acordo com nada daquilo. Era uma espécie de cartilha política sendo passada para a população o tempo todo, de formatação tipo lavagem cerebral da pior espécie. Quando mudava para o papel impresso, o jornal, encontrava sempre com a coluna da jornalista Miriam Leitão, outra que deixei de ler. Quando chegava nessa coluna, sempre dava uma passada rápida d’olhos para ver do que se tratava, e por mais incrível que possa parecer, nunca vi essa senhora publicar alguma coisa favorável ao governo, uma nota que fosse de algo positivo, nada, era só doses diárias com peso cavalar de puro baixo astral. Nem durante os anos de bonança do período Lula,  ela mudou, continuou falando mal do governo durante esse tempo todo, nunca entendi porque não se fatiga nunca de fazer isso, bater no governo, embora saiba que além disso ela fez outros trabalhos, escreveu e publicou livros, etc. E como é provável que ela tenha muitos leitores,  o que aumenta a sua responsabilidade, e também o seu ibope e a sua influência ideológica sobre um grande número de pessoas, que também são eleitores. É claro que essa dose cavalar de crítica e intriga política, acaba por pesar muito contra a imagem de qualquer governo, queima o filme, provoca desgaste, aquele negócio de “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, é exatamente isso. Se acrescentarmos também alguns erros do próprio governo, pronto, está feito o cenário perfeito, favorável e muito atraente para os golpistas. Além da participação de inúmeros outros comentaristas tanto de política como de economia, fazendo e aumentando a carga do contra. Em relação a economia e a política, praticamente não existe fronteira entre as duas ciências, é muito tênue a linha entre ambas, nos primórdios a ciência econômica era conhecida como: "economia política". É unânime e constante a repetição da mesma cartilha ideológica, a mesma lavagem cerebral. Então o resultado é isso, que estamos a assistir cotidianamente, gerando uma crise política que contamina a economia e acaba por afetar toda a população, prejudicando MAIS como sempre os mais pobres. Aliás o principal alvo dessa cantilena de direita, parece ser a figura da presidente que é constantemente atacada e demonizada, mas o alvo principal a atingir são as políticas públicas de transferência de renda para os mais pobres através de vários programas sociais, como a política de cotas para negros, um programa extremamente satanizado. É isso que querem mudar de fato, a figura da presidente é apenas simbólica, ela não é tão incompetente como a mídia apregoa diariamente e os eleitores mais simples acabam por acreditar. E também por toda aquela gente mal vestida, que emergiu e hoje prefere viajar de avião, e que é extremamente ridicularizada nas redes sociais. Toda essa política favorável aos mais pobres não é nem um pouco bem vista. É isso que está em jogo, além também da questão dos 'Brics' e da inserção do país no mundo,  não é a corrupção em absoluto. A pauta da corrupção é só uma fachada, uma espécie de cortina de fumaça, para desgastar mais ainda a imagem do atual governo. Quem conspira a favor do golpe para tirar a presidente, é gente que não gosta nem um pouco da política favorável aos mais pobres desse governo, eles querem mais do que nunca mudar e acabar com tudo isso. Que não se tenha nenhuma ilusão a respeito disso e nem a menor dúvida.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Atropelaram a gramática


Há alguns anos atrás, quando encerramos as atividades do grupo de estudos filosóficos aqui na serra fluminense, em Nova Friburgo, que funcionou durante dez anos, e que organizamos como instrumento  para o exercício de um pouco de vida inteligente minimamente possível, dentro de condições limitadas por vários motivos e razões. Diante do fim de um ciclo, com o desgaste natural do grupo e de seus membros, resolvemos encerrar as atividades. Com o fim do grupo, no início me peguei um pouco desmotivado para continuar com as leituras de textos de filosofia, e assim entrei num clima de “fechado para balanço”, pus entre parênteses as leituras de filosofia, e passei a me restringir mais às leituras de jornais, revistas e alguma literatura, coisas mais amenas. Foi nessa ocasião, que começava a emergir o movimento da direita política brasileira, que nunca deixou de existir entre nós, só que antes era uma coisa meio enrustida, envergonhada, meio por baixo dos panos, ainda no armário. Finalmente alguns deles começaram a perder o medo e a vergonha de se expor, e passaram a levantar bandeiras abertamente de direita. Por essa ocasião, lembro de ter lido na grande imprensa a declaração de um articulista de São Paulo, que já se dizia de direita na época, o jornalista Reinaldo Azevedo, onde afirmava, que finalmente a direita política estava mais preparada e instrumentalizada intelectualmente, para o enfrentamento com as esquerdas brasileiras, com as mesmas armas e instrumentos teóricos dos adversários, que antes a maioria deles não tinha. Li tudo aquilo e registrei na memória, e a partir dali passei a prestar mais atenção ao que aqueles caras tinham a dizer. É bom o exercício do contraditório, não somos jamais os donos da verdade, aprendemos todo dia e a todo instante, desde que estejamos aberto para tal. Com o tempo passando acelerado, voltei a ler e estudar filosofia de novo, Hegel, Lukács, os autores da Escola de Frankfurt, sobretudo Adorno, além de Marx, Zizek e até Piketty, voltei a redigir os meus próprios textos, e compartilhei alguns deles no Facebook, além do blog, onde vez ou outra publicava alguma coisa, que considerasse mais pertinente. Pois muito bem, o tempo foi passando, e desde então venho assistindo todo o movimento golpista e conspiratório e as suas tentativas malogradas de tentar voltar ao poder através de um golpe sem adjetivo por enquanto. É um verdadeiro vale tudo, onde tudo pode e é permitido para se alcançar objetivos espúrios, porque são completamente incompetentes, para chegar ao poder através do voto, de ganhar no e pelo voto, querem então levar na mão grande. Os golpistas de hoje não tem um projeto nacional para o país e para os brasileiros, no fundo continua valendo o velho sonho de permanecer uma sonolenta colônia tropical do império. Tanto falaram em preparo e competência teórica, e no entanto, até agora não consegui descobrir nada de surpreendente no preparo intelectual dessa direita tupiniquim. Se estudaram o tanto que apregoaram, não utilizaram quase nada desse suposto saber, que praticamente ainda não vi, nem vejo nenhuma manifestação dele. Ou talvez tenham mudado de tática e estratégia e não queiram mais perder tempo com querelas intelectuais e ideológicas. Os golpistas partiram para cima de forma truculenta, cheios de rancor, ressentimento e ódio, como uns trogloditas à moda fascista. Como os golpistas tentaram repetidas vezes, e não conseguiram desestabilizar o governo central, a ponto de derrubá-lo de forma definitiva, começam a demonstrar impaciência, a perder as estribeiras, o autocontrole, e com isso passaram a apelar para todos os artifícios políticos ou não ao alcance. Assim, no afã de chegar lá, de alcançar os seus objetivos perniciosos através da sanha golpista, acabaram por desmascarar completamente os seus próprios objetivos espúrios, tudo ficou visivelmente à mostra, a descoberto, ficaram com as calças na mão à vista de todos. Se antes julgavam que podiam chegar ao poder por se acharem suficientemente preparados para a luta político ideológica contra os oponentes das esquerdas, e como se frustraram no caminho, porque não conseguiram. Começaram a perder literalmente a cabeça, a cometer erros atrás de erros, a trocar os pés pelas mãos, mico após mico, e assim todo aquele suposto preparo tão propalado e apregoado pela grande mídia foi para o espaço. Em consequência de tudo isso, bateu o desespero nas hostes golpistas, e assim eles começam a se perder na coisa passional e a ATROPELAR a Gramática, a Lógica, a Ética, o Bom Senso, atropelam enfim até a paciência de todos. De forma, que hoje em dia, não consigo enxergar tanto preparo intelectual nessa cambada de fascistas, embora reconheça que entre eles, tenha gente muito esperta, determinada e preparada, mas aí é outro tipo de preparo, o peculiar "expertise" em golpes, os golpistas são truculentos mas não são tolos. O ano de 1964 ainda está bem fresco na memória, a sinalizar a lembrança de tudo que se passou. Por isso é preciso estar vigilante, alerta, atento e forte, como dizia a letra da canção popular, porque os golpistas não desistem nunca, se não for através do golpe eles não tem como se sentir vencedores uma vezinha que seja, é só o golpe que resta aos golpistas. Portanto não tem como os golpistas desistirem, não há outra alternativa para os golpistas, é o golpe ou o golpe. Isso está claro e evidente. Ainda existe no horizonte um certo risco, com a intensificação da atuação dos golpistas. O risco que existe, é quando se pensa na formação da opinião pública através do convencimento ideológico, pela mediação da grande imprensa, através de veículos como o rádio, jornais, revistas, televisão e internet, a grande maioria dessa mídia dominante ainda está nas mãos de golpistas ou sendo instrumentos deles. Quer dizer, o risco existe do movimento golpista começar a ganhar na rua, que não é a mesma coisa que ganhar a rua, porque ganhar as ruas, todas as correntes políticas já o fizeram. O problema para os golpistas é que a velocidade das inovações tecnológicas já está acima da velocidade do som, e daqui a pouco, é ainda difícil quantificar quando, mas logo logo todo esse sistema de comunicação midiática de massa nacional estará completamente obsoleto, o Paulo Henrique Amorim adora tocar nesse ponto em seus textos e colunas. Então os golpistas precisarão de forma rápida encontrar outro caminho alternativo ao golpe perene, sua única estratégia para voltar ao poder. Porque fazer política através apenas de golpe é muito muito OBSOLETO.    

quinta-feira, 10 de março de 2016

Existe raiva ideológica?



Para começo de conversa, raiva é um afeto, um sentimento violento de ódio ou de rancor exageradamente forte, uma manifestação patética(pathos), para não dizer neurótica. Portanto é um afeto que nos toca profundamente, somos levados por ele, e corremos o risco de perder a cabeça, quando levado às últimas consequências. Já o termo “ideológico” relativo à ideologia, é a qualidade de um determinado tipo de pensamento materializado através de um discurso, exemplo: “Ah, isso é uma crença ideológica”. Temos vários tipos de pensamentos, como é o caso do pensamento mítico, que antecedeu o pensamento filosófico e o científico, o pensamento religioso e o IDEOLÓGICO. Quando junto “ideológico” com o termo que dá nome ao sentimento de ódio extremo, como é o caso de raiva, fica parecendo um adjetivo, que está qualificando um afeto, um sentimento. Logo uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Portanto é completamente inadequado proceder arbitrariamente nessa juntada forçada. Só é legítimo usar o termo ideológico para qualificar um determinado tipo de pensamento, jamais um sentimento, é impossível um sentimento ser considerado ideológico. Se fosse na época do velho Nelson Rodrigues, diante de uma expressão como essa do título, certamente ele diria bem no seu peculiar estilo: "isso é de um absurdo monumental". Por outro lado é bom ressaltar, que os vocábulos existem para exprimir determinados sentidos e significados no uso corrente que é feito de uma determinada língua, e não podemos ao nosso bel prazer forçar uma barra, para dizer outra coisa, nem inverter os sinais todos do trânsito caótico do dia a dia. Todo mundo sabe que o termo “ideologia” possui vários significados válidos, que foram se acumulando ao longo da história desse vocábulo, desde Destutt de Tracy, Cabanis e outros, na França iluminista do século XVIII, passando por Karl Marx da Ideologia Alemã e até os dias de hoje. Sem entrar no mérito desses diferentes significados aqui, porque não é esse o objetivo agora, prefiro ficar apenas com o significado, que tem mais predominado ultimamente.
Ideologia vista como um discurso justificador e legitimador de uma determinada prática factual e social, que precisa mais do que tudo esconder ou camuflar as suas reais intenções do público alvo atingido por elas. Para isso é construído todo um discurso próprio, específico, encobridor das reais intenções daquela prática factual, dessa forma pode-se continuar efetivamente a praticar os atos nocivos contrários aos interesses daquele público alvo, com o auxílio e o uso de um discurso ideológico específico, que justifique aquela prática sem riscos, pois o discurso ideológico em tela justifica e LEGITIMA tudo aquilo efetivamente praticado. E somente com o auxílio de uma reflexão filosófica consequente e radical (no sentido de ir às raízes das coisas), É POSSÍVEL por sob o holofote da razão toda aquela artimanha do pensamento ENCOBRIDOR e FALSIFICADOR de uma ideologia a serviço de. Só para concluir, gostaria de lembrar, que quando se junta um determinado tipo de sentimento com a qualidade de um tipo de pensamento, é como estivesse se juntando alhos com bugalhos.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Filósofos na área



Não se fazem mais filósofos como antigamente
Volta e meia, tenho observado gente, se apresentando como "filósofo" em artigos publicados pela imprensa leiga e de massa, alguns até com entrevistas. O que a princípio poderia ser avaliado como algo alvissareiro, bons os tempos em que filósofos escrevem artigos para a imprensa de massa e até dão entrevistas, nem tudo está perdido, existe luz no fim do túnel. Ledo engano. Apesar dessas súbitas aparições, depois que lemos o artigo, ficamos na mesma, isto é, sem saber nada a respeito do pensamento do “filósofo”, porque ele escreve e publica, mas não se expõe jamais naquilo que escreve, e assim se torna uma tarefa impossível saber o que pensa. De posse do nome do suposto “filósofo”, autor do artigo, vamos ao Google em busca de saber algo a respeito do indivíduo que se diz filósofo, e nada ou quase nada é encontrado, quase uma frustração e desapontamento, não fosse verificar logo a seguir, que é muito raro achar qualquer coisa, que indique, pelo menos, o que pensa o tal "filósofo". Não se acha uma nota que seja, em forma de comentário assinado pelo suposto filósofo sobre textos publicados por outros articulistas, NADA. Jamais se posiciona, publica comentário sobre textos alheios, e muito menos prestigia o trabalho de um colega. Tudo funciona, como se o suposto "filósofo" fosse invisível ou tivesse sido salvo, semelhante um arquivo de internet, nas nuvens, como se costuma dizer agora. Além de não ser nada fácil saber o que pensa, pela quase total falta de exposição e de excesso de reserva do suposto “filósofo”, já que quase nunca se expõe. TAMBÉM não adianta, se o objetivo for procurar conhecê-lo melhor, tentar assistir uma palestra sua sobre um pensador qualquer, Kant por exemplo, proferida por algum deles. Porque o máximo que vai conseguir, será saber um pouquinho mais sobre o pensamento do sábio alemão, nada que revele o pensamento próprio do conferencista, que continua mais fechado que uma ostra. E continua tudo do mesmo jeito, sem a presença do contraditório. Continua, portanto, se apresentando por aí a fora, como se filósofo fosse. Mas que filósofo é esse que não se manifesta, que não exibe aquilo que pensa, que não mostra a cara, que não se expõe, que está sempre atrás do biombo filosófico, ou seja por trás das outras filosofias já pensadas e filosofadas? É só filosofia já filosofada, congelada e mumificada dos manuais, e arquivada nos escaninhos da mente do suposto filósofo, pronta para ser exibida quando surgir uma oportunidade. Um saber acumulado e morto, que descontextualizado, praticamente não serve pra nada, a não ser mostrar para os simples mortais, que sabe mais filosofia, que conhece mais sobre Kant, do que qualquer um de nós. Algo similar ao saber bancário, tantas vezes mencionado na obra de Paulo Freire. Um saber quase nulo e inútil. Considero uma contradição nos termos, alguém se dizer filósofo e ser incapaz de questionar o mundo que o cerca, a conjuntura política, cultural, etc., ter um pensamento próprio, em suma PENSAR no verdadeiro sentido da palavra. Limita-se apenas a ser um eterno replicante de pensamentos alheios. Não consegue encontrar motivo para dar uma aplicação mais pragmática, a tudo aquilo que leu e continua lendo todos os dias de forma compulsiva e compulsoria de teoria filosófica. A não ser preparar de vez em quando, uma palestra sobre algum ponto do pensamento de Levinas, Merleau-Ponty, Heidegger e outros. Será que é só e tão somente só isso, a que se resume a atividade filosófica? Não, não pode ser, claro que não é, a própria história da filosofia mostra que não. A filosofia é um instrumento valioso e poderoso no auxílio da investigação e da pesquisa na vida de qualquer pensador. A teoria filosófica, pode ser bem aplicada, quando instrumentaliza o investigador a inquirir a realidade concreta com muito mais perspicácia e gabarito, ajuda a revelar as conexões nem sempre aparentes dos fenômenos. A Filosofia bem aplicada torna-se uma espécie de má consciência da realidade de uma sociedade, por sua capacidade de desvelamento e desmascaramento do que está implícito ou escondido, porque foi exatamente dessa maneira que fizeram os filósofos mais consequentes de ontem. Por essa razão, e não por outra, que a reflexão filosófica não consegue agradar nem um pouco, aos regimes políticos autoritários e de exceção, aos ditadores da vez e a todos os poderosos de plantão. O que pode levar quem faz filosofia de forma consequente, correr certos riscos, inclusive uma condenação à morte, como foi o caso de Sócrates e Giordano Bruno. Mesmo não sendo um país de alguma tradição no campo teórico, o Brasil durante a ditadura militar de 1964, sofreu muito e teve perdas monumentais na área das ciências humanas em geral, o ensino de Filosofia por exemplo foi banido por completo da grade curricular do ensino médio, e só retornou após o fim da ditadura. E por pouco, mas muito pouco mesmo, a ditadura militar brasileira não conseguiu terminar o trabalho sujo, que era acabar de forma definitiva com o ensino de Filosofia nos cursos superiores, tanto o de licenciatura na formação de professores, como também o de graduação das universidades federais pelo país afora. Além da cassação, expulsão, prisão e por último o exílio voluntário dos principais expoentes do ensino de Filosofia, Sociologia e outras disciplinas questionadoras do ensino superior. Até na área da pesquisa científica, o Instituto Oswaldo Cruz foi um dos que foi atingido em cheio, com a prisão de doze de seus principais pesquisadores, uma verdadeira caça às bruxas. Excelentes mestres foram postos para fora da universidade, como foi o caso do genial professor Rolando Corbisier, de quem tive a honra de ter sido aluno, grande mestre, de saudosa memória. Enquanto isso, aquele suposto "filósofo" continua publicando de vez em quando, artigos na imprensa leiga, sobre o pensamento de algum filósofo consagrado de ontem ou de hoje, e no final do seu pequeno texto assina: "filósofo" fulano de tal, sem absolutamente se abalar com nada. Porque como não é capaz de pensar, de refletir sobre a realidade concreta do mundo a seu redor, acaba por passar praticamente invisível e incólume diante dos fatos, não incomoda nada nem ninguém, nem tampouco se abala com nada, já que não fede nem cheira.

segunda-feira, 7 de março de 2016

ILS SONT TOUJOURS DESOLÉ


Uma nota marcante da minha última viagem à Paris, foi o fato de ouvir tanta gente, na maioria estrangeiros, é bom que se diga; a reclamar contra a expressão que dá título ao presente texto: "je suis desolé". É intrigante para muita gente hoje em dia, que fenômeno é esse, que faz Paris ainda continuar a ser procurada e visitada por uma quantidade tão incomensuravelmente grande de forasteiros; mesmo não sendo mais a mítica cidade que foi no passado. A cidade luz, capital do iluminismo, da revolução francesa, do célebre lema de mais liberdade, igualdade e fraternidade, terra de grandes escritores, grandes sábios e pensadores, sobretudo na política e na filosofia, além de ter sido escolhida como residência permanente para tantos gênios da pintura, da música e da dança, e até da ciência. Não, Paris não é nada disso mais, isso tudo é passado, está registrado e documentado nos museus, não se vive mais esse clima cultural e nem essa atmosfera cultural intensa do século passado, ao andar pelas ruas parisienses de hoje em dia. O movimento que perdurou durante muito tempo no dia a dia dos cidadãos daquela grande cidade, quase uma capital mundial, na verdade era uma onda, que vinha desde o tempo do iluminismo no século XVIII, e que durou, na minha opinião até a morte do filósofo Michel Foucault em 1984, em 1980 morreu o maior de todos eles, Jean-Paul Sartre. A partir daí foi só queda, porque não quero usar o termo decadência. A França ficou órfã da presença de um "maître penseur". Há, é claro, as suas obras sendo republicadas quase que permanentemente, sem dúvida, mas não existe mais aquela grande referência viva, trabalhando e publicando de vez em quando alguma coisa relevante, que toda a gente espera chegar, como quando se esperava o novo filme de Fellini com alguma ansiedade nos anos setenta do século passado. Gradativamente Paris foi perdendo as suas principais referências, e não conseguindo ao mesmo tempo repô-las. Por essa razão, é que chama tanta atenção o fenômeno da quantidade incrível de tantos turistas ainda nos dias de hoje, mesmo fora da alta temporada, por todo o canto que se ande, sempre se esbarra com muitos estrangeiros, de diferentes origens e nacionalidades. Por que? Por outro lado, é fato que o perfil do visitante também muda com a passagem do tempo. Observei dessa vez, grandes hordas de turistas asiáticos, muitos japoneses incluídos, esperando que as portas da Galerie Lafayette fossem abertas para eles, na verdade a loja já estava aberta ao público comum, agora no caso dos asiáticos, a coisa era organizada de outra forma, eles adentravam na loja somente em grupos com um limite fixo no número de indivíduos por grupo, enquanto isso, os outros esperavam lá fora sob o sol ou chuva se fosse o caso, porque todo o dia é a mesma coisa, lá estão eles novamente. E os preços da loja são bem caros, cheguei a entrar só de curiosidade, para saber o que tinha ali de tão especial, para todo aquele sacrifício asiático ser feito daquela forma, juro que nada que vi me interessasse ou me tocasse de forma especial, só me assustei com os preços, com coisas muito mais caras de algo similar, que havia visto no Boulevard Saint German por exemplo, que já é, por sua vez, um lugar também caro. Diante disso, entendi que a quantidade de visitantes hoje está a mesma ou maior do que antes, por razões diferentes, que antes fazia alguém escolher Paris e não outra cidade. São outros tempos. Voltando à nota marcante, agora foi curioso ver tanta gente reclamando do maldito "je suis desolé" dos parisienses, se décadas atrás já se via um ou outro parisiense dizendo: "je suis desolé", quando algum estrangeiro, mal informado, o parasse para solicitar uma determinada informação, diziam que não sabiam e no final, concluíam com: "je suis desolé", em seguida viravam as costas e partiam, nos deixando com cara de tacho. Mas era raro acontecer, muito raro, só mesmo uma vez ou outra, se escutava essa expressão, na maioria das vezes, os franceses, costumavam dar de ombro e nem ouviam direito o que lhes fosse perguntado, passavam batidos e sumiam. Hoje virou uma frase tipo forma pronta, padrão de descartar estrangeiro, todo mundo, digo todo parisiense a utiliza. Depois de ouvir tanta queixa contra aquela expressão verbal eu mesmo fui a luta, fui checar e testar na prática, ver como isso se dava, e saí por aí a fazer perguntas aos desconhecidos e recebi em troca muitos "je suis desolé" pela cara, alguns com um tom a mais ou a menos de ironia ou maldade mesmo, e olha que falo francês com alguma fluência, mesmo assim era fatal receber um "je suis desolé" no final. Por isso a regra básica em Paris hoje em dia, para quem é de fora e não conhece a cidade direito, quando precisar de uma informação, procurar sempre os serviços públicos próprios e específicos, para esse tipo de atendimento, jamais parar um estranho e desconhecido na rua, a não ser que na hora H esteja passando por você um agente público, policial ou guarda uniformizado. Um francês que conheci num Café e trocamos uns minutos de prosa, demonstrando já estar de saco cheio de turistas, disse que não entendia porque Paris ainda atraía tanta gente, que jamais perderia o tempo de férias dele em cidades do porte de Paris, que não valia a pena por uma série de razões, preferia muito mais as ilhas gregas, ou as praias da costa sul da Turquia e por último o sul da Itália. Nada mal para umas férias, sem dúvida, mas não se viaja apenas nas férias, ainda bem.