quinta-feira, 10 de março de 2016

Existe raiva ideológica?



Para começo de conversa, raiva é um afeto, um sentimento violento de ódio ou de rancor exageradamente forte, uma manifestação patética(pathos), para não dizer neurótica. Portanto é um afeto que nos toca profundamente, somos levados por ele, e corremos o risco de perder a cabeça, quando levado às últimas consequências. Já o termo “ideológico” relativo à ideologia, é a qualidade de um determinado tipo de pensamento materializado através de um discurso, exemplo: “Ah, isso é uma crença ideológica”. Temos vários tipos de pensamentos, como é o caso do pensamento mítico, que antecedeu o pensamento filosófico e o científico, o pensamento religioso e o IDEOLÓGICO. Quando junto “ideológico” com o termo que dá nome ao sentimento de ódio extremo, como é o caso de raiva, fica parecendo um adjetivo, que está qualificando um afeto, um sentimento. Logo uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Portanto é completamente inadequado proceder arbitrariamente nessa juntada forçada. Só é legítimo usar o termo ideológico para qualificar um determinado tipo de pensamento, jamais um sentimento, é impossível um sentimento ser considerado ideológico. Se fosse na época do velho Nelson Rodrigues, diante de uma expressão como essa do título, certamente ele diria bem no seu peculiar estilo: "isso é de um absurdo monumental". Por outro lado é bom ressaltar, que os vocábulos existem para exprimir determinados sentidos e significados no uso corrente que é feito de uma determinada língua, e não podemos ao nosso bel prazer forçar uma barra, para dizer outra coisa, nem inverter os sinais todos do trânsito caótico do dia a dia. Todo mundo sabe que o termo “ideologia” possui vários significados válidos, que foram se acumulando ao longo da história desse vocábulo, desde Destutt de Tracy, Cabanis e outros, na França iluminista do século XVIII, passando por Karl Marx da Ideologia Alemã e até os dias de hoje. Sem entrar no mérito desses diferentes significados aqui, porque não é esse o objetivo agora, prefiro ficar apenas com o significado, que tem mais predominado ultimamente.
Ideologia vista como um discurso justificador e legitimador de uma determinada prática factual e social, que precisa mais do que tudo esconder ou camuflar as suas reais intenções do público alvo atingido por elas. Para isso é construído todo um discurso próprio, específico, encobridor das reais intenções daquela prática factual, dessa forma pode-se continuar efetivamente a praticar os atos nocivos contrários aos interesses daquele público alvo, com o auxílio e o uso de um discurso ideológico específico, que justifique aquela prática sem riscos, pois o discurso ideológico em tela justifica e LEGITIMA tudo aquilo efetivamente praticado. E somente com o auxílio de uma reflexão filosófica consequente e radical (no sentido de ir às raízes das coisas), É POSSÍVEL por sob o holofote da razão toda aquela artimanha do pensamento ENCOBRIDOR e FALSIFICADOR de uma ideologia a serviço de. Só para concluir, gostaria de lembrar, que quando se junta um determinado tipo de sentimento com a qualidade de um tipo de pensamento, é como estivesse se juntando alhos com bugalhos.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Filósofos na área



Não se fazem mais filósofos como antigamente
Volta e meia, tenho observado gente, se apresentando como "filósofo" em artigos publicados pela imprensa leiga e de massa, alguns até com entrevistas. O que a princípio poderia ser avaliado como algo alvissareiro, bons os tempos em que filósofos escrevem artigos para a imprensa de massa e até dão entrevistas, nem tudo está perdido, existe luz no fim do túnel. Ledo engano. Apesar dessas súbitas aparições, depois que lemos o artigo, ficamos na mesma, isto é, sem saber nada a respeito do pensamento do “filósofo”, porque ele escreve e publica, mas não se expõe jamais naquilo que escreve, e assim se torna uma tarefa impossível saber o que pensa. De posse do nome do suposto “filósofo”, autor do artigo, vamos ao Google em busca de saber algo a respeito do indivíduo que se diz filósofo, e nada ou quase nada é encontrado, quase uma frustração e desapontamento, não fosse verificar logo a seguir, que é muito raro achar qualquer coisa, que indique, pelo menos, o que pensa o tal "filósofo". Não se acha uma nota que seja, em forma de comentário assinado pelo suposto filósofo sobre textos publicados por outros articulistas, NADA. Jamais se posiciona, publica comentário sobre textos alheios, e muito menos prestigia o trabalho de um colega. Tudo funciona, como se o suposto "filósofo" fosse invisível ou tivesse sido salvo, semelhante um arquivo de internet, nas nuvens, como se costuma dizer agora. Além de não ser nada fácil saber o que pensa, pela quase total falta de exposição e de excesso de reserva do suposto “filósofo”, já que quase nunca se expõe. TAMBÉM não adianta, se o objetivo for procurar conhecê-lo melhor, tentar assistir uma palestra sua sobre um pensador qualquer, Kant por exemplo, proferida por algum deles. Porque o máximo que vai conseguir, será saber um pouquinho mais sobre o pensamento do sábio alemão, nada que revele o pensamento próprio do conferencista, que continua mais fechado que uma ostra. E continua tudo do mesmo jeito, sem a presença do contraditório. Continua, portanto, se apresentando por aí a fora, como se filósofo fosse. Mas que filósofo é esse que não se manifesta, que não exibe aquilo que pensa, que não mostra a cara, que não se expõe, que está sempre atrás do biombo filosófico, ou seja por trás das outras filosofias já pensadas e filosofadas? É só filosofia já filosofada, congelada e mumificada dos manuais, e arquivada nos escaninhos da mente do suposto filósofo, pronta para ser exibida quando surgir uma oportunidade. Um saber acumulado e morto, que descontextualizado, praticamente não serve pra nada, a não ser mostrar para os simples mortais, que sabe mais filosofia, que conhece mais sobre Kant, do que qualquer um de nós. Algo similar ao saber bancário, tantas vezes mencionado na obra de Paulo Freire. Um saber quase nulo e inútil. Considero uma contradição nos termos, alguém se dizer filósofo e ser incapaz de questionar o mundo que o cerca, a conjuntura política, cultural, etc., ter um pensamento próprio, em suma PENSAR no verdadeiro sentido da palavra. Limita-se apenas a ser um eterno replicante de pensamentos alheios. Não consegue encontrar motivo para dar uma aplicação mais pragmática, a tudo aquilo que leu e continua lendo todos os dias de forma compulsiva e compulsoria de teoria filosófica. A não ser preparar de vez em quando, uma palestra sobre algum ponto do pensamento de Levinas, Merleau-Ponty, Heidegger e outros. Será que é só e tão somente só isso, a que se resume a atividade filosófica? Não, não pode ser, claro que não é, a própria história da filosofia mostra que não. A filosofia é um instrumento valioso e poderoso no auxílio da investigação e da pesquisa na vida de qualquer pensador. A teoria filosófica, pode ser bem aplicada, quando instrumentaliza o investigador a inquirir a realidade concreta com muito mais perspicácia e gabarito, ajuda a revelar as conexões nem sempre aparentes dos fenômenos. A Filosofia bem aplicada torna-se uma espécie de má consciência da realidade de uma sociedade, por sua capacidade de desvelamento e desmascaramento do que está implícito ou escondido, porque foi exatamente dessa maneira que fizeram os filósofos mais consequentes de ontem. Por essa razão, e não por outra, que a reflexão filosófica não consegue agradar nem um pouco, aos regimes políticos autoritários e de exceção, aos ditadores da vez e a todos os poderosos de plantão. O que pode levar quem faz filosofia de forma consequente, correr certos riscos, inclusive uma condenação à morte, como foi o caso de Sócrates e Giordano Bruno. Mesmo não sendo um país de alguma tradição no campo teórico, o Brasil durante a ditadura militar de 1964, sofreu muito e teve perdas monumentais na área das ciências humanas em geral, o ensino de Filosofia por exemplo foi banido por completo da grade curricular do ensino médio, e só retornou após o fim da ditadura. E por pouco, mas muito pouco mesmo, a ditadura militar brasileira não conseguiu terminar o trabalho sujo, que era acabar de forma definitiva com o ensino de Filosofia nos cursos superiores, tanto o de licenciatura na formação de professores, como também o de graduação das universidades federais pelo país afora. Além da cassação, expulsão, prisão e por último o exílio voluntário dos principais expoentes do ensino de Filosofia, Sociologia e outras disciplinas questionadoras do ensino superior. Até na área da pesquisa científica, o Instituto Oswaldo Cruz foi um dos que foi atingido em cheio, com a prisão de doze de seus principais pesquisadores, uma verdadeira caça às bruxas. Excelentes mestres foram postos para fora da universidade, como foi o caso do genial professor Rolando Corbisier, de quem tive a honra de ter sido aluno, grande mestre, de saudosa memória. Enquanto isso, aquele suposto "filósofo" continua publicando de vez em quando, artigos na imprensa leiga, sobre o pensamento de algum filósofo consagrado de ontem ou de hoje, e no final do seu pequeno texto assina: "filósofo" fulano de tal, sem absolutamente se abalar com nada. Porque como não é capaz de pensar, de refletir sobre a realidade concreta do mundo a seu redor, acaba por passar praticamente invisível e incólume diante dos fatos, não incomoda nada nem ninguém, nem tampouco se abala com nada, já que não fede nem cheira.

segunda-feira, 7 de março de 2016

ILS SONT TOUJOURS DESOLÉ


Uma nota marcante da minha última viagem à Paris, foi o fato de ouvir tanta gente, na maioria estrangeiros, é bom que se diga; a reclamar contra a expressão que dá título ao presente texto: "je suis desolé". É intrigante para muita gente hoje em dia, que fenômeno é esse, que faz Paris ainda continuar a ser procurada e visitada por uma quantidade tão incomensuravelmente grande de forasteiros; mesmo não sendo mais a mítica cidade que foi no passado. A cidade luz, capital do iluminismo, da revolução francesa, do célebre lema de mais liberdade, igualdade e fraternidade, terra de grandes escritores, grandes sábios e pensadores, sobretudo na política e na filosofia, além de ter sido escolhida como residência permanente para tantos gênios da pintura, da música e da dança, e até da ciência. Não, Paris não é nada disso mais, isso tudo é passado, está registrado e documentado nos museus, não se vive mais esse clima cultural e nem essa atmosfera cultural intensa do século passado, ao andar pelas ruas parisienses de hoje em dia. O movimento que perdurou durante muito tempo no dia a dia dos cidadãos daquela grande cidade, quase uma capital mundial, na verdade era uma onda, que vinha desde o tempo do iluminismo no século XVIII, e que durou, na minha opinião até a morte do filósofo Michel Foucault em 1984, em 1980 morreu o maior de todos eles, Jean-Paul Sartre. A partir daí foi só queda, porque não quero usar o termo decadência. A França ficou órfã da presença de um "maître penseur". Há, é claro, as suas obras sendo republicadas quase que permanentemente, sem dúvida, mas não existe mais aquela grande referência viva, trabalhando e publicando de vez em quando alguma coisa relevante, que toda a gente espera chegar, como quando se esperava o novo filme de Fellini com alguma ansiedade nos anos setenta do século passado. Gradativamente Paris foi perdendo as suas principais referências, e não conseguindo ao mesmo tempo repô-las. Por essa razão, é que chama tanta atenção o fenômeno da quantidade incrível de tantos turistas ainda nos dias de hoje, mesmo fora da alta temporada, por todo o canto que se ande, sempre se esbarra com muitos estrangeiros, de diferentes origens e nacionalidades. Por que? Por outro lado, é fato que o perfil do visitante também muda com a passagem do tempo. Observei dessa vez, grandes hordas de turistas asiáticos, muitos japoneses incluídos, esperando que as portas da Galerie Lafayette fossem abertas para eles, na verdade a loja já estava aberta ao público comum, agora no caso dos asiáticos, a coisa era organizada de outra forma, eles adentravam na loja somente em grupos com um limite fixo no número de indivíduos por grupo, enquanto isso, os outros esperavam lá fora sob o sol ou chuva se fosse o caso, porque todo o dia é a mesma coisa, lá estão eles novamente. E os preços da loja são bem caros, cheguei a entrar só de curiosidade, para saber o que tinha ali de tão especial, para todo aquele sacrifício asiático ser feito daquela forma, juro que nada que vi me interessasse ou me tocasse de forma especial, só me assustei com os preços, com coisas muito mais caras de algo similar, que havia visto no Boulevard Saint German por exemplo, que já é, por sua vez, um lugar também caro. Diante disso, entendi que a quantidade de visitantes hoje está a mesma ou maior do que antes, por razões diferentes, que antes fazia alguém escolher Paris e não outra cidade. São outros tempos. Voltando à nota marcante, agora foi curioso ver tanta gente reclamando do maldito "je suis desolé" dos parisienses, se décadas atrás já se via um ou outro parisiense dizendo: "je suis desolé", quando algum estrangeiro, mal informado, o parasse para solicitar uma determinada informação, diziam que não sabiam e no final, concluíam com: "je suis desolé", em seguida viravam as costas e partiam, nos deixando com cara de tacho. Mas era raro acontecer, muito raro, só mesmo uma vez ou outra, se escutava essa expressão, na maioria das vezes, os franceses, costumavam dar de ombro e nem ouviam direito o que lhes fosse perguntado, passavam batidos e sumiam. Hoje virou uma frase tipo forma pronta, padrão de descartar estrangeiro, todo mundo, digo todo parisiense a utiliza. Depois de ouvir tanta queixa contra aquela expressão verbal eu mesmo fui a luta, fui checar e testar na prática, ver como isso se dava, e saí por aí a fazer perguntas aos desconhecidos e recebi em troca muitos "je suis desolé" pela cara, alguns com um tom a mais ou a menos de ironia ou maldade mesmo, e olha que falo francês com alguma fluência, mesmo assim era fatal receber um "je suis desolé" no final. Por isso a regra básica em Paris hoje em dia, para quem é de fora e não conhece a cidade direito, quando precisar de uma informação, procurar sempre os serviços públicos próprios e específicos, para esse tipo de atendimento, jamais parar um estranho e desconhecido na rua, a não ser que na hora H esteja passando por você um agente público, policial ou guarda uniformizado. Um francês que conheci num Café e trocamos uns minutos de prosa, demonstrando já estar de saco cheio de turistas, disse que não entendia porque Paris ainda atraía tanta gente, que jamais perderia o tempo de férias dele em cidades do porte de Paris, que não valia a pena por uma série de razões, preferia muito mais as ilhas gregas, ou as praias da costa sul da Turquia e por último o sul da Itália. Nada mal para umas férias, sem dúvida, mas não se viaja apenas nas férias, ainda bem.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

VICIADO EM SACANAGEM

O “viciado em sacanagem” não tem no horizonte nenhuma meta de chegar ao êxtase, jamais. O mais importante é manter sempre acesa a chama da libido. Procurar estar sempre em estado de atenção e alerta, e de pau duro para qualquer eventualidade. É como aquele asceta que se excita, de forma pré-masturbatória, acaricia-se, mas não goza. Quando perde um pouco da ereção, procura de imediato retornar às fantasias eróticas em busca de mais excitação, e assim permanece em torno do prazer, mas sem jamais chegar ao finalmente, através do gozo e da ejaculação. Apesar dessa busca constante pela ereção, e como tudo acaba sendo um trabalho, um exercício em busca de, tudo isso está muito longe de um priapismo. Porque todo esse movimento erótico, na verdade, trata-se de um exercício quase tântrico, que visa ampliar cada vez mais a duração da transa, do coito, antes do gozo final. O que é legítimo, pois procura valorizar mais o “durante”, do que o final, o gozo. O “durante” que também é importante e prazeroso. Então o “viciado em sacanagem” viaja um pouco por essa onda, onde o grande barato é o permanente estado de excitação, sem o qual ele não sobrevive. Dessa forma procura o maior número possível de parceiros sexuais, reais e imaginários, não importa, desde que essas situações o mantenha sempre aceso, em constante ebulição, quanto mais ligado melhor. E dessa forma o “viciado em sacanagem” vai levando a vida, até mesmo quando tem a chance de escolher um parceiro fixo, procura por alguém “difícil”, amores difíceis, que crie óbices desfavoráveis à completa realização amorosa e afetiva. Tem sempre muitas dificuldades em seus envolvimentos complicados e com pessoas complicadas, mal resolvidas, com interesses outros além do amor erótico. Geralmente a aritmética quantitativa é mais importante que as qualidades das relações. Vale como ilustração, e como exemplo, o caso Dé, que inclusive, coitado, já é falecido. Seus amigos mais próximos, costumam comentar, que Dé procurava sempre se cercar de muitos homens ao seu redor, homens dos mais variados tipos, alguns bem atraentes e bonitos, e outros, a grande maioria, nem tanto. Uma verdadeira macharia tinha se tornado o seu lar, segundo palavras de uma amiga comum. Quando o conheci, ele já estava aposentado pela Prefeitura, aposentado precocemente por invalidez permanente devido ao vírus Hiv. Aposentado com um ótimo salário, algo em torno de doze mil reais. Mas, havia uma nota marcante nele, por essa época, é que estava sempre se queixando de falta de grana, seus proventos nunca eram suficientes para cobrir todos os gastos. Volta e meia segundo o próprio, valia-se de empréstimos consignados na rede bancária local, para complementar os rendimentos da pensão, e também para quitar outras dívidas contraídas com juros mais altos. Vivia o tempo todo nessa ginástica financeira. O rumor que rolava, era que ele havia se convencido, que se tivesse a posse de mais cocaína “chez lui” o tempo todo, teria também, por todo tempo do mundo, a presença de rapazes, que atraídos pela isca da cocaína, tornavam-se assim presas mais fáceis para o assédio sexual. E dessa maneira, Dé vinha há alguns anos tocando a vida. As vezes adoecia, em algumas delas precisava de internação hospitalar. Quando se recuperava, voltava o mais rápido que podia à ativa, à vidinha de sempre, ou seja, para a esbórnia, para muita cocaína e os muitos e variados parceiros sexuais. O sexo em si não contava muito, o que contava mais era a excitação que a presença de tantos rapazes por perto proporcionava. Nem ligava muito para o sexo em si, depois de toda uma noite de muita ligação e excitação, confessava as vezes. Haja excitação! Uma loucura! Cheguei a ouvir, que ele atrás de obter cocaína mais barata, já estava a ponto de correr maiores riscos, entrando em comunidades desconhecidas, o que também, por sua vez, com a adrenalina da aventura, provocava mais excitação ainda. O que o foi levando cada vez mais ao estado de dependência desse “feeling” maldito. Tudo isso até, infelizmente, chegar ao desfecho final.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Algumas rápidas impressões de Paris antes do atentado

Paris a cidade está muito bem, continua linda como sempre, em alguns lugares percebo, que a limpeza pública não é mais a mesma, com papéis e guimbas de cigarro largados pelo chão, que não foram ainda recolhidos pelo serviço de limpeza pública. Essa foi a primeira impressão, sobretudo nas áreas turísticas, porque depois pude constatar ao vivo sentado no 'terrace' de algum Café ou Bistrô, que o serviço de limpeza pública passa de três a quatro vezes por dia nas áreas turísticas, que os próprios turistas sujam muito, que não tem serviço público, que consiga dar conta da falta de educação de alguns turistas, uma turma da pesada realmente. Por outro lado, tive oportunidade de conhecer bairros não turísticos, mais residenciais, ao visitar amigos franceses, cujas ruas eram impecáveis, quase padrão suíço, além de limpos eram lugares bem mais tranquilos. Agora gostaria de falar de um cantinho, que me pegou principalmente pela boca, glutão que sou por doces, depois descobri outros lugares também bons em doces em outras partes da cidade, mas a primeira impressão da Rue Mouffetard, foi que tinha chegado ao paraíso. Além dos doces, tem também outras lojinhas cheias de charme, na decoração, no lay out  e no bom gosto em geral, ao longo de toda a rua, que fazem toda a diferença, quando a comparamos com outros lugares similares. Recomendo a quem estiver indo para Paris, não deixar de fazer um passeio por essa rua, durante uma tarde pelo menos, para tomar um bom café e comer um éclair, a nossa bomba de chocolate, na Rue de Mouffetard, Quartier Latin, ou se deliciar com outras infinitas coisinhas gostosas. Hum! Que delícia! A rua Mouffetard é tudo de bom. Acho até que exagerei um pouco, passei muito do limite, porque não conseguia resistir a tantas tentações, e quando me dava conta da vida, lá estava eu por aqueles cantos da rua, sentado em algum lugar gostoso ou mesmo caminhando. Curti muito aquela rua maravilhosa. Outro lugar explorado nessa viagem, foi o Marais, um lugar realmente que se pode chamar de especial. Um bairro com a quase totalidade dos imóveis da época medieval, que foi completamente revitalizado dos anos noventa pra cá. Quando vivi em Londres nos anos oitenta e ia a Paris de vez enquando, o Marais era um bairro completamente decadente e evitado, apesar de ser bem central. Para quem está na rive gauche e atravessa as pontes sobre o Sena, situadas atrás da nave mãe da Catedral de Notre Dame, já cai direto no Marais. É um lugar sobretudo para curtir  inicialmente com o olhar, procurar descobrir algo interessante que atraia, em seguida usufruir com todos os outros sentidos, e finalmente terminar se perdendo literalmente, tal o poder de encanto e feitiço, que o lugar proporciona e estimula. Lembro bem o dia, quando me dirigi até lá com um objetivo específico, algo que não iria me tomar mais do que uma hora no máximo, se mantivesse o foco, e quando me dei conta, o dia estava quase terminando, mas foi ótimo, adorei. Dessa vez, fui três vezes até lá, e fiquei com a impressão de não ter conhecido nada. É mágico, bárbaro, absurdo e fantástico. Entrei numa lojinha de artigos para cozinha, a procura de uma lembrança para uma amiga, e fiquei impressionado com a quantidade e variedade dos artigos, objetos e gêneros alimentícios exóticos de toda a parte do mundo, além de infinitas outras coisas interessantes, tudo me mostrado por uma senhora judia, que gerenciava a loja, e que sabia tudo, conhecia tudo, dava até a impressão, que por lá estivesse desde sempre. Encontrei também pequenas livrarias boutiques, porque Paris quase não tem mais livrarias meio termo, de tamanho médio, ou são as grandes redes tipo FNAC, que tem filial no Brasil, ou as pequenas livrarias boutiques, especializadas ou não, as livrarias  medias, que existiam em profusão no Boulevard Saint-German quase não existem mais, por vários motivos e razões, dentre os quais os similares do Brasil, altos aluguéis inviabilizaram vários negociantes de livros, que tiveram que fechar as portas e encerrar o empreendimento de forma definitiva, livros agora no Boulevard Saint-German, só em camelôs nas calçadas, e no lugar das antigas livrarias e sebos, agora apenas lojas de marca famosa de roupas e acessórios caros. Mas voltando ao Marais, além das pequenas livrarias, tem também como em toda Paris, pequenos Cafés e bistrôs, onde se pode pedir um café e passar o tempo que se quiser, iniciar um papo com alguém sentado ao lado e deixar o tempo passar. Aliás, nesse particular, alguns pontos de Paris lembra muito o Rio, com a sua profusão e a abundância de botecos. No Marais tudo é muito bonito, com um certo charme e encanto todo especial, mas também bem mais caro do que outras partes da cidade. Enfim esse é o preço que se paga, quando se escolhe curtir um lugar diferenciado, mas vale a pena, o cafezinho parece até mais gostoso.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O amante ideológico

Episódio 1 - O Cara da Feira
O título sugere de cara uma ideia óbvia, a ideia de que existe gente que só se enamora por quem pensa de acordo com o próprio figurino. Na verdade só se joga de cabeça numa relação, só se enamora realmente pra valer pelo objeto amado, por esse obscuro objeto do desejo, quando tem certeza e clareza de quais são os valores e ideias do amado. E quando uma coisa não bate com a outra, não foram poucas vezes, em que teve que saltar do veículo (relação amorosa), com o carro em movimento, correndo sérios riscos, riscos até de vida. E os motivos para todas essas situações de "cair fora", variam desde uma leve decepção amorosa por exemplo, até mesmo descobrir a escrotidão da mente do objeto amado, que corta totalmente a vontade de continuar mantendo uma coisa, da qual não tem coragem de chamar de relação. É em momentos como esses, que o desejo material (carnal) perde feio para o desejo imaterial, as idealizações, ou seja a própria mente do objeto amado, seus valores, suas crenças e ideias, em outras palavras a sua MENTALIDADE. Uma luta entre escolher o que no outro fala mais forte quando o assunto é o desejo, o que afeta com mais intensidade, a cabeça versus o corpo. A estupefação de não poder suportar o fato de alguém tão bonito, tão gostoso e sensual, quase um ser divino, possuir ao mesmo tempo uma cabeça tão escrota. O primeiro impulso que aflora, é o desejo de escapar daquela situação incômoda, o desejo de fugir, bater em retirada, virar as costas, para evitar  maiores dissabores futuros. Mas na verdade pretendo mostrar um outro aspecto dessa história, porque sinto, que algo não bate muito bem, porque como muitos dizem e asseveram que a carne é fraca, e por esse motivo é quem fala sempre mais alto, que esperneia mais forte e que acaba por vencer, na maioria das vezes, a batalha contra uma cabeça fraca, movida mais pelo desejo carnal do que pelo pensamento. Aí tem algo que não fecha a conta, não sei bem o que é ainda, nem tampouco desconfio, mas deve ter. Enquanto isso, vamos lá apresentar o restante da turma, para ir completando o quadro com quase todo mundo, mesmo que todo o processo seja bem devagar, já que vamos ter que introduzir na presente estória, membro a membro, os indivíduos mais revelantes e importantes, que frequentam o Clube. Inicialmente vamos apresentar um sujeito que não lembro agora o nome em absoluto, mas vamos chamá-lo de "cara da feira". O cara da feira não é alguém que poderia ser considerado bonito, não, nada disso, ele não é bonito, nem tampouco é feio, o feio clássico também não é. Quando se olha para ele com mais perspicácia, é possível descobrir um certo charme, e até mesmo um pouco de 'sex-appeal'. O problema todo começa quando o coitado abre a boca, e olha que ele gosta muito de abrir a boca, abre a boca o tempo todo, adora falar, sempre num tom mais alto que os demais, adora polemizar e contar estórias e causos, em geral os mais escabrosos possíveis. E como todos sabem, em geral quem fala muito, acaba por se expor muito também, o que leva a correr o risco de cometer pequenos erros, alguns vacilos, falar alguma bobagem, e assim acaba por mostrar, que não passa de um tolo ou idiota as vezes, em suma acaba pagando mico. E quando se fala muito, fica visível e aparente também os valores, que revelam o carácter das crenças ideológicas e outras, que se possui. Pois muito bem, em seu excesso de expressão oral, de incontinência verbal, o "cara da feira" acaba por mostrar, dentre tantas outras, mais uma faceta, que é ser dono de uma cabeça muito conservadora, pois o seu machismo e sexismo fica explícito em vários momentos de sua narrativa exibicionista monologal, pois ele nunca dialoga, adora falar sozinho, não demonstra o menor interesse pelo que os outros tenham ou não a dizer. "Que se fodam todos", ele profere as vezes. Em várias ocasiões fala muito mal dos viados, e a única palavra que possui para se referir aos gays é o vocábulo VIADO, que profere em alto brado, como se um clone fosse do deputado Jair Bolsonaro. Tem o perfil de ser, quem sabe evangélico, apesar de todos os palavrões bem cabeludos que gosta de emitir, mas não tenho certeza que o seja. Então dessa forma ele continua a ridicularizar os viados, utilizando-se para isso de uma enorme variedade de clichês e chavões, que profere enquanto sataniza os viados, com impropérios que hoje em dia não se encaixa nem mesmo na bicha considerada escrachada, ou seja, no tipo mais afeminado. Não consigo identificar nem imaginar nenhum grupo ou tribo do mundo gay que se enquadre em seus clichês e estereótipos, mas mesmo assim, ele continua com as suas diatribes e com as piadinhas grosseiras e politicamente incorretas, que dispara a todo momento visando atingir em cheio o alvo gay. Agora, é curioso por outro lado, observar que ele apesar de feirante, dono de uma barraca de não sei o quê na feira, para o feirante meio apeãozado que é, até que tem um gosto bem peculiar e sofisticado em suas escolhas de roupa íntima, "underwear". Só o vejo exibindo cuecas de marcas famosas, coisa fina mesmo, coisa que jamais me passou pela cabeça em comprar, por várias razões, principalmente por causa do preço, devem ser caras, e para quê também? Se as dele não forem falsas, forem legítimas portanto, ele anda fazendo um alto investimento nas peças, e provavelmente devem ser legítimas pela forma toda especial como ele se comporta ao exibí-las e ostentá-las, através de toda uma dança corporal, de toda uma expressão corporal bem particular, que denota ser o foco principal a exibição em si daquele novo modelo de cueca. Numa noite dessas ele exibia uma Calvin Klein vermelha tipo boxer, um escândalo! Talvez não para ele, que fazia o jogo, de forma a parecer que estivesse se sentindo o mais natural possível, mas era visível como chamava a atenção, todos olhavam para ele, quer dizer olhavam para a cueca vermelha. É curioso observar não ser ele apenas o único a se comportar dessa maneira, aquela sauna é um verdadeiro desfile de cuecas de grifes famosas, tem coisa que nem conheço, que nem sei a procedência. Mas sinto uma atmosfera meio fetichista naquilo tudo, apesar do aparente discurso anti gay e anti viado . No meu modo de ver noto que alguns se exibem deliberadamente, mas que pode muito bem ser inconsciente. E para disfarçar, esconder e escamotear um pouco o DESEJO ali presente, embora silencioso e camuflado, pois está em estado latente. O desejo acaba de alguma forma por aparecer e se manifestar, isso é inevitável. Como o corpo não pode esbravejar, se esgoelar, exprime-se de outra maneira, de forma não vocabular, jamais através do discurso linguístico. O corpo mostra uma coisa e em contra partida é confrontado e desafiado por um discurso anti gay radical, agressivo, raivoso e intolerante, quase, se já não o for, homofóbico. Pelo que estamos acompanhando, uma coisa surge, que é o discurso homofóbico, para escamotear uma outra, aquilo que se precisa esconder de todo o jeito e de todas as formas. O discurso anti gay vem para camuflar o desejo homoerótico ali presente corporalmente através de vários sinais e signos não linguísticos, incluindo a expressão corporal exibicionista dos mais protagonistas. Dependendo da interpretação que se faça, talvez aí esteja o caráter ideológico dessa coisa toda, a necessidade de esconder, escamotear e trapacear através de um discurso negativista aparente. Greta Garbo quem diria...! E tudo acaba sendo uma aparente contradição para os incautos...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A busca do centro ou o centro da busca



Na verdade, acho que quase todos perseguem e desejam obter o domínio total de si mesmo, encontrar a auto confiança necessária e o auto controle possível, na transa cotidiana com os seus semelhantes, estranhos ou não. Aquilo que se costuma chamar de: "ficar centrado". A busca do centro e do equilíbrio, que é tão comum no proselitismo dos mestres do budismo. Já para os simples mortais o ponto ótimo não existe, é uma miragem, serve apenas como uma referência para o balizamento frente à realidade, quase impossível de ser atingido. Quando se busca algo é porque não se possui aquilo que se procura. Na maior parte das vezes, nem sempre se fica satisfeito com o equilíbrio alcançado, muito aquém do desejado, mas como podemos nos tornar anônimos(quase invisíveis) em certas ocasiões, não é muito difícil poder passar batido pelos estranhos, que esbarramos por aí, sem necessariamente bandeirar alguns desequilíbrios ocasionais, e algumas pequenas loucuras. E contando também, é bom que se diga para não esquecer do lema de que "nem tudo que parece é". Conseguimos passar quase incólumes por toda a pressão, salvo aqueles que são sujeitos às paranoias persecutórias. Hoje em dia é mais comum, ver gente manifestar desequilíbrios em maior escala, quando se põem a dirigir na experiência do trânsito, onde uma grande parte dos motoristas se tornam mais agressivos, do que normalmente costumam ser, é o famoso: "cabeça, tronco e rodas" como definição de ser humano para motorista, no trânsito enlouquecido de nossas cidades e metrópoles. Como disse no início, a busca do equilíbrio e do centro, é a grande meta a ser buscada, nem sempre possível de ser alcançada. Com um vacilo aqui e outro acolá, "se vai levando", como disse um poeta, porque também ninguém é de ferro, e tudo acaba também por ir se tornando aparentemente normal, no sentido de quase natural. Em momentos que alguns conseguem ficar, na maior parte do tempo, ficar e permanecer no comando das suas próprias ações, sobretudo quando estão interagindo com estranhos. Para permanecer no controle é bom observar algumas regras básicas, como por exemplo EVITAR se meter em discussões carregadas de forte tom emocional com desconhecidos, seja sobre que assunto for, principalmente porque numa discussão com um desconhecido não dá para prever aonde se pode chegar, é tudo muito imprevisível. Para não correr esse risco e também o risco de se perder em discussões e debates estéreis, que não levam à nada, principalmente quando o interlocutor é incapaz de fazer a menor reflexão possível, que repete chavões e frases feitas rapidamente decoradas, como se fossem verdades absolutas, e que servem como uma luva para o exemplo daquilo que Adorno diz em sua Dialética do Esclarecimento(Aufklürung), quando distingue ignorância da estupidez e da burrice. Embora seja quase impossível resistir a entrar numa discussão, que porventura esteja rolando ao redor. Pois é, aí é que está o "x" da questão, não conseguir resistir ao apelo de determinada palavra chave que se ouve, quase que sem querer. É certo que quando se está um tanto quanto travado, sob o jugo da auto censura e do superego, e a vida se torna mais limitada, fica muito mais fácil se recolher num canto qualquer ou nos recônditos da mente, e dessa forma não entramos na discussão, mas a que preço? Em outros momentos, é irresistível não entrar em alguma polêmica e também, como consequência, não conseguir manter o devido controle emocional. Mas tudo bem, porque nada é assim tão fundamental, a ponto de nos levar a sofrer punições sociais graves, ou que deixe sequelas, tudo acaba passando muito rápido, nem dá tempo para deixar marcas.