quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Soberba viciante


Fernando gosta de dizer, o que por sua vez já é uma justificativa, que faz análise, porque julga que ainda precisa se sentir mais fortalecido, precisa de mais empoderamento, para só assim poder enfrentar o mundo e os outros com mais bagagem emocional, e aí sim, ter mais chances de obter êxito, mais vitórias que derrotas. E já dizia isso, quando o conheci há mais de duas décadas atrás, no finalzinho dos anos oitenta. É claro, que de lá pra cá, já mudou de analista não sei quantas vezes, e só agora com o último, é que adquiriu uma certa estabilidade, pois já dura uns oito anos.
Apesar de tudo, não se consegue ver até onde a vista alcança, nenhum final no processo analítico de Fernando. Quase nenhuma possibilidade de alta, pelo contrário, continua cada vez mais entusiasmado, a ponto de continuar fazendo de vez em quando, certo proselitismo psicanalítico, ao recomendar o tratamento a quase todo mundo, que conhece, sobretudo àqueles de quem se aproxima de forma mais íntima. Teve uma época, que falar a respeito de psicanálise, era uma espécie de gancho, que precisava, para se aproximar de alguma jovem interessante. Segundo o próprio, essa foi a estratégia principal, para abordar mulher durante um certo período da sua vida, até quando parou de funcionar, não dando mais os resultados esperados, o que o fez abandonar por completo tal ferramenta.
Mas ainda não é difícil, vez ou outra, encontrá-lo falando a respeito com desconhecidos e estranhas principalmente. Quando o assunto é psicanálise, ele gosta de dizer, que ainda está muito longe de atingir o objetivo proposto no começo do tratamento, que o mundo ficou muito mais difícil e violento, que é cada vez mais difícil se adaptar a tudo sem o socorro da psicanálise. Diante do que, fico a me indagar, qual seria a razão de tudo isso? Dependência, vício, uma escora ou apoio que não liberta e que só cria cada vez mais dependência? Se for vício, seria vício em quê?
Lembro que no começo do tratamento a demanda era por mais poder, precisava se sentir mais forte, para poder enfrentar um mundo adverso e cruel. De lá pra cá, é possível, que tenha conseguido adquirir o tal empoderamento, que tanto queria, certamente que o tenha obtido, pelo menos em parte, senão já teria abandonado o tratamento, já que tinha tanta clareza do que queria alcançar. Seria vício em poder, em ter a posse de mais poder? Como alguém que precisa do poder, para na pior das hipóteses, pelo menos poder se sentir mais perto do poder em último caso. Como ama o poder, que é o que mais deseja possuir hoje em dia, numa escala de valor em que o poder estaria numa posição mais vantajosa, até mesmo superior ao próprio dinheiro físico e materialmente falando. Costuma dizer que o dinheiro é consequência de mais poder alcançado. E como ele acredita que o mundo é uma espécie de guerra eterna de todos contra todos, que só sobrevive mesmo os mais fortes, a demanda por mais poder, é uma demanda também constante e eterna, porque não dizer infinita, segundo palavras do próprio. E como ele não considera aquela demanda um vício, de forma alguma, tudo leva a crer, que tudo aquilo que o mantém ligado e em busca de, continuará a persistir por muito tempo ainda. Sempre em busca do Poder, de mais poder, até não poder mais.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cabeça dura

Pobreza e maluquice

Acho que Augusto tem uma cabeça maluca, uma espécie de maluco beleza, muito longe da loucura insana dos manicômios, longe portanto do maluco que perdeu a viagem completamente. Mas ainda assim maluco, na medida que abriu mão totalmente de qualquer projeto de vida, uma meta, um objetivo, um sonho ou qualquer coisa que se tenha vontade de realizar. Vive apenas para o que a vida vier a possibilitar na hora, ele acredita nisso, acredita que aquilo que chama de vida, pode enviar coisas para os humanos. Vive portanto entregue aos sabores e humores do presente, ou daquilo que gosta de dizer com frequência: "do aqui e do agora", seja este qual for, bom ou ruim. Pode-se dizer, que por ter escolhido viver dessa maneira, já esteja pagando o preço, coisa que vem pagando há muito tempo. Tudo leva a crer, que se foi uma escolha deliberada, toda a situação de dificuldades, pelas quais, vez ou outra, vem passando, deverá continuar.  Toda essa estória irá continuar e ainda vai longe, bem longe, para desespero de alguns de seus amigos mais fiéis. Como não se vê nenhuma possibilidade de mudança, continuará a não ter projetos, nem nada parecido. Quando ouve qualquer coisa similar a cobranças do tipo, fica muito chateado, e sua reação é dizer e repetir, que não quer ficar a mercê de encucações. Como se o simples fato de pensar e refletir, fosse capaz de levar alguém ao sofrimento, deveria ser o contrário, usar o pensamento para evitar os erros. Portanto, é completamente falso pensar dessa forma, coisa que Augusto não chega a perceber, o que torna tudo muito mais difícil. Pelo exposto acima, continuo bastante cético sobre a possibilidade de mudança. É claro que um sujeito, que está mais preocupado com o hoje, para quem a prioridade essencial é encontrar algo para forrar o estômago. Que para alcançar esse objetivo vai precisar utilizar de toda sua força, física e mental. Será esse então o seu foco principal daqui por diante, de tal sorte, que quase não restará mais energia para divagações de qualquer tipo. Portanto, quem assim vive, não pode ter projeto, nem pensar sobre o dia de amanhã. O que poderia parecer um luxo, um desperdício de tempo, ou até mesmo uma coisa supérflua. Confesso que foi pensando em Augusto, e em todos os seus problemas e no seu estilo de vida, que passei a dar maior atenção e valor aos programas sociais e as políticas públicas de transferências de renda para os mais pobres, com o foco na redução das desigualdades. Para que a curto e médio prazo, os mais carentes ao conseguir equacionar a questão alimentar, possam também desempenhar um papel de maior protagonismo social, protagonismo na tomada de decisão sobre os rumos a tomar na vida, e que cheguem a elaborar os seus próprios projetos de vida, em busca de um futuro melhor. Só agora me dei conta, do curioso de tudo que acabei de narrar, porque na verdade só queria esclarecer a maluquice de Augusto, sobretudo distingui-la da loucura insana de Lauro, outro amigo comum, loucura de tal ordem, que acabou por arrastá-lo literalmente para as ruas, onde acabou por se estabelecer e transformar-se num autêntico morador de rua, hoje em dia mais um mendigo fedorento que se vê por aí, como tantos outros. Já Augusto, pelo contrário, continua inseridíssimo no sistema, embora continue na informalidade como autônomo, prestador de pequenos serviços, uma espécie de biscateiro. Cada dia que passa, ao acordar sabe, que precisa enfrentar mais uma jornada em busca de conseguir o pão de cada dia, uma aventura penosa, as vezes consegue obter o suficiente, em outras nem tanto, e assim segue na labuta. Acho que a loucura de Augusto encontrou uma brecha para se instalar exatamente na interseção, naquela zona entre o totalmente inserido e o porra louca, o maluco beleza, que ainda carrega em si. O inserido dele permanece, pelo fato de ter conseguido manter um pequeno sítio num lugar legal. O fato de ter uma casa para chamar de sua, é de uma importância fundamental, principalmente para quem leva uma vida instável e insegura em tantos e variados aspectos. Talvez o sítio seja o pé, que o mantém materialmente inserido no sistema e na própria realidade factual, o que possibilita uma leve aparência de normalidade aos olhos dos outros. Isso me lembra o ditado: "que de fora todo mundo é normal"; ou daquele outro, já invertendo totalmente o sentido, que: "de perto ninguém é normal". E segundo diz um outro velho ditado de que "o uso do cachimbo faz a boca torta". Por ter que correr tanto atrás do sustento diário no aqui e agora, acaba não sobrando quase nenhum tempo a mais para o sonho, para as idealizações factíveis ou não, para um novo projeto de vida, para quem sabe encontrar um plano B alternativo. E a consequência por ter permanecido tanto tempo sem oportunidade de alcançar protagonismo mental, de poder dispor da mente para mais divagações, de poder ficar a imaginar coisas, que seria capaz de usar a mente como ferramenta de auxílio, para desenvolver e arquitetar planos, que melhore a própria vida, torná-la menos instável e insegura, com mais tempo para o prazer e a criatividade, para aproveitar as inúmeras oportunidades e chances, que a própria vida proporciona. Portanto, se não consegue ter essa vivência mental, toda essa experiência imaginária e simbólica, acaba por se tornar um jogador imediatista, já que praticamente não precisa mais da mente para realizar as suas tarefas. E aqui concluo,  abrindo um parêntese final para inserir uma fala, uma pequena declaração de Augusto em forma de desabafo, feita recentemente em off pelo próprio: "Ah! Me jogo de cabeça mesmo, e tudo bem! Vivo o presente, ou seja, vivo o momento do aqui e o do agora. Logo não preciso da mente para viver, a mente virou um acessório que posso usar ou não, e usar ao meu bel prazer, quando for conveniente. E então retorno aos meus impulsos cotidianos sejam eles quais forem, digestivos ou sexuais, são esses impulsos, que me comandam, que me governam, que me movem, e eu adoro que seja assim, acho ótimo, porque não gostaria nem um pouco de correr o risco de baixar o meu astral, se me pusesse a pensar sobre a vida. Sei que do mesmo jeito que fico num perrengue danado de vez em quando, tudo também pode mudar de uma hora para outra, como acontece quando pinta uma grana de um trabalho qualquer e eu não me faço de rogado e gasto tudo num belo jantar num japonês incrível. Acho ótimo e não me arrependo nem um pouco depois, não tem essa de arrependimento, não sinto culpa por nada, vivo o presente e ponto final."

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Estado versus Mercado

Em seu último livro: "A tolice da inteligência brasileira" da LeYa Editora, o sociólogo Jessé de Souza atual presidente do IPEA, indaga abismado (para não dizer indignado), porque a elite culta brasileira demoniza tanto o Estado brasileiro, que acusam de ter sido apropriado e corrompido ao longo do tempo pelas elites econômicas através do chamado patrimonialismo, e não dá o mesmo tratamento nem procede da mesma forma, quando se referem ao (deus) mercado. Ora, se são os mesmos atores e agentes econômicos, por que são corruptos apenas quando operam no Estado nacional e quase nunca se denuncia nada em relação a atuação dos mesmos agentes quando atuam no próprio mercado? Quem sabe agora com o andamento da operação Lava Jato, tudo isso venha a ser desmentido e se possa ser desmitificadas e reestudadas décadas de estudos sociais brasileiros, estudos de autores carimbados e consagrados ao longo de todos esses anos, que são verdadeiros cânones na academia e estudados ainda hoje nos cursos universitários, como é o caso segundo Jessé de Souza, de gente do peso de um Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Raymundo Faoro por exemplo, além de muitos outros. É claro, que não se pode dizer que tudo seja fruto apenas de um colonialismo cultural e intelectual de nossas principais cabeças teóricas, quando se importa as idéias dominantes de fora, sem adaptar a visão do colonizado às condições específicas do próprio ambiente cultural do colonizado, e não pela ótica exclusiva do colonizador, ou da maneira como somos vistos de fora. O que gera uma tremenda distorção de visão e perspectiva. Além disso tem toda uma necessidade de nossas principais mentes, de justificar e legitimar toda uma ordem(ou desordem) econômica, produtora de profundas desigualdades sociais, que herdamos do período escravocrata e que ainda permanece em larga escala na maior parte do país. Justificar e legitimar através do discurso ideológico que passa através de todo um corpo teórico pseudo científico, que muitas vezes reflete muito mais o senso comum do que o conhecimento científico da realidade. Com essas considerações fica evidente a falácia de se achar que o Mercado é a solução para tudo, e que portanto se tem mais é que reduzir o tamanho do Estado cada vez mais, o que é uma bandeira da ideologia do liberalismo econômico atual, o chamado neo-liberalismo que prega também a desregulação cada vez maior do capital financeiro, que foi o principal fator que inclusive levou o mundo à crise do capitalismo financeiro de 2008, crise essa que continua refletindo e repercutindo no mundo até agora. Fala-se de uma forma, que deixa a impressão que a partir do momento, que atendendo aos reclamos do mercado, se conseguir deixar quase tudo entregue aos caprichos do mercado, tudo será ótimo e não se terá mais corrupção. Nada mais falso e falacioso, é só olhar o que aconteceu por aqui durante a ocasião da privatização de nossas empresas estatais durante o governo de FHC nos anos noventa. Quem tem algum discernimento assistiu e compreendeu como se deu todo aquele processo de privatização ocorrido durante os dois governos de FHC, com toda a corrupção que rolou solta na venda de ativos públicos, inclusive com a cessão de bens públicos para certos amigos adquirirem aqueles bens com financiamentos também públicos via BNDES e por preços irrisórios. Bem, mas tudo isso é considerado hoje águas passadas, não é mais oportuno nem relevante se tocar nesse tipo de assunto para uma certa imprensa. E enquanto isso, se continua dando cada vez mais um VIVA ao deus Mercado.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O fazer filosófico

Inicio com um título deveras curioso quase que de propósito, porque jamais se pensa a filosofia como um fazer, em geral costuma-se ver a filosofia mais como um campo repleto de saberes. Já em relação a arte é muito mais fácil enxergá-la como um fazer essencialmente, muito embora alguns artistas não só façam arte como reflitam a respeito da sua atividade principal, e alguns deles com muita propriedade e categoria. Mas em geral se costuma deixar as tarefas de compreensão e reflexão sobre o fazer artístico, entregue aos caprichos dos filósofos. Alguns conseguiram elaborar verdadeiros compêndios de Estética, o primeiro deles foi obra de Aristóteles, que infelizmente só chegou até nós alguns fragmentos de sua Estética, estudada ainda nos dias de hoje nos cursos universitários de teatro, filosofia e outros. Mais contemporaneamente foram os filósofos Hegel e Lukács, quem melhor nos deixou um trabalho mais consistente e completo da Estética. Com estudos aprofundados a respeito de praticamente todas as atividades artísticas, indo por exemplo da arquitetura à música, etc. Tenho uma opinião a respeito daqueles que se ocupam com a teoria filosófica. Sabe-se da importância do conhecimento filosófico para o bem da humanidade, um conhecimento que também instrumentaliza o próprio auto-conhecimento. E portanto é sabido toda a sua relevância em diferentes sentidos e aspectos no cotidiano de todos nós. Sobretudo quando o conhecimento filosófico opera como instrumento e ferramenta no auxílio de uma melhor compreensão do mundo real, do nosso cotidiano, para que não tenhamos que permanecer somente no plano da inconsciência e ter que enfrentar as surpresas desagradáveis do dia a dia sem saber o porque. Agora quando a atividade filosófica se restringe apenas ao campo teórico, torna-se uma atividade estéril e inútil, como um cachorro que morde o próprio rabo o tempo todo. É o caso daqueles que se envaidecem apenas em poder ficar citando frases e máximas desse ou daquele pensador, que por acaso tenham decorado em suas imensas leituras aqui e ali, sem nem um pouco preocuparem-se se aquela citação tem alguma coisa a ver com o mundo em que estamos a viver. Ou daqueles que mal algum interlocutor abre a boca desejando proferir algum vocábulo para contra argumentar, e que de pronto já recebe aquela perguntinha fatal: "você sabe o que significa tal vocábulo, ou tal conceito?". Em geral quem procede dessa forma atem-se apenas ao significado estrito daquele conceito em particular, que se sabe ser esse ou aquele, de acordo com a teoria desse ou daquele filósofo particular, mas que como se sabe os sentidos mudam de acordo com o pensador, e que portanto não existe um significado eterno e único para todo e qualquer conceito da teoria filosófica e que seja comum a todos os filósofos. Sabe-se, por outro lado que, para quem vive no mundinho particular das ideias das teorias filosóficas, qualquer tentativa que se faça para trazer a reflexão para o chão da terra ou da fábrica, do aqui e do agora, é em geral muito mal visto e de pronto rechaçado de forma peremptória. As pessoas não querem deixar a zona de conforto daquele mundinho, o mundinho das ideias, e assim fica-se restrito apenas ao âmbito teórico, evita-se ao extremo se sujar, se contaminar (por que não?) com o mundo real. E aqui cabe uma pergunta, para quê serve esse tipo de atividade filosófica? Seria uma coisa muito mais no plano quantitativo, quando o que mais importa será a quantidade de saber que se conseguiu acumular e decorar, frases, máximas, datas e lugares onde essa ou aquela citação foi mencionada ou dita, ou escrita, por esse ou aquele pensador, de quem também se conhece todos os seus dados biográficos, porque como leitor compulsivo devorou quase tudo, e sabe quase tudo? Para quê serve esse tipo de coisa? Que importância tem uma atividade, que é muito mais burocrática e arquivista do que reflexiva?

domingo, 20 de dezembro de 2015

A oposição camicase

A estratégia que uma certa oposição resolveu aplicar contra o planalto, isto é, apostar todas as fichas numa política de terra arrasada, do quanto pior melhor, em negar até mesmo apoio no Congresso às medidas de sua própria cartilha neoliberal, sendo contra o seu próprio DNA. Ao agir dessa forma, essa oposição não está sendo contra apenas o governo central, está agindo contra o seu próprio país, contra o Brasil, e em consequência estão prejudicando os interesses de toda a população, incluindo até mesmo aqueles que lhe deram votos. Por isso é que não consigo entender que razões são essas, que levam essa gente a querer empurrar de forma definitiva o país ladeira abaixo. Suas ações só demonstram que eles querem destruir tudo aquilo que foi conquistado ao longo desses últimos anos. O objetivo é não permitir nenhuma governabilidade a atual presidente, e para isso farão tudo que estiver ao alcance, se precisar eles dizem que incendiarão o país, negam tudo que foi feito até agora, num negativismo extremamente radical e irresponsável. Para quê tudo isso? Que país esperam encontrar depois disso tudo, caso consigam obter êxito? Diante disso talvez seja oportuno lembrar um pouco da ocasião das eleições gerais de 2014, onde havia uma crítica explicitada pela mídia, de que não havia oposição no Brasil, a oposição existente não estava sendo capaz de cumprir o seu papel de oposição, não estava sendo competente, e por isso perderam as últimas quatro eleições para presidente da república, incluindo a última de 2014. Perderam duas para Lula e outras duas para Dilma Roussef. Diante desse quadro, resolveram que a partir dali tudo seria diferente, e mal a presidente assumiu o seu segundo mandato começou a receber uma enxurrada de toda sorte de crítica desqualificativa nada nada respeitosa, principalmente considerando ser ela uma mulher, uma senhora de 68 anos, fato esse que não atenuou em nada tais críticas, pelo contrário o fato da presidente ser mulher só agravou a situação. O que revela o nível da mentalidade de nossa sociedade, onde a figura da mulher ainda não recebe o devido respeito que merece, revelando portanto uma mentalidade de atraso. E desde então não pararam mais com os ataques de todas as maneiras, através de todos os meios possíveis, principalmente através da grande mídia. Surfaram na onda da torcida do contra, votaram a favor de todas as pautas bombas existentes na Câmara dos Deputados Federais. Postas na ordem do dia por um presidente, que foi eleito com o objetivo de criar dificuldades para o executivo, com a intenção de cumprir o papel de presidente da Câmara adversário, que assumia em coletiva de imprensa ser adversário do governo, portanto uma atitude nada republicana nem muito menos constitucional. E ao incumbir-se do papel de mestre de cerimônia do caos político, a meta era levar o país e o seu governo central à total ingovernabilidade. Concomitantemente a tudo isso houve a corrida em direção ao impeachment da presidente, com ameaças e intimidações, exigência de barganha política para não aceitar alguns dos diferentes pedidos de impeachment apresentados por diferentes setores da oposição, que estamos a assistir ao longo de todo esse ano de 2015. Um espetáculo tétrico e lamentável que está quase parando o país, uma coisa tóxica da política, contaminando a economia e levando à retração econômica, ao baixo investimento e a recessão econômica, gerando desemprego e outras consequências, tudo o que a oposição quer, quanto pior estiver o país, melhor para eles, é assim que eles raciocinam. Felizmente agora nesse final de ano, devido a todos os recessos na esfera pública, teremos uma pequena trégua desse movimento negativista, desse baixo astral. Muito embora se saiba, que essa oposição não estancará as suas conspirações, as armações dos próximos planos, mesmo durante o recesso, o saco de maldades deles está cheio, eles são incansáveis. Tudo isso porque eles não gostam nem um pouco da política social para redução da desigualdade do atual governo. Coisa que a oposição já começa a revelar aqui e ali, não ainda na mídia aberta e de massa, para não assustar a população e com isso correr o risco de perder apoio. Mas em off dizem outra coisa. Nos programas de entrevistas da tv paga, os seus formadores de opinião, comentaristas de economia e de política, declaram abertamente a rejeição a toda a política social atual, dizem que o país não tem mais os recursos para continuar a manter essa política, etc. Chamam a política social de distribuição de renda aos mais pobres de bolivarianismo, e afirmam que odeiam tal coisa, que esperam acabar com ela assim que for possível, com a volta deles ao poder central através da queda da presidente, que eles desejam e trabalham para depor através de um golpe parlamentar, com a ajuda do fiel escudeiro e servidor, o atual presidente da Câmara Eduardo Cunha, uma figura bizarra, que conduz a Câmara dos deputados, como se fosse um chefe mafioso. Desqualificam as políticas de ampliação dos direitos civis, da conquista de mais cidadania para os mais fracos da sociedade, dizem tratar-se de puro populismo, um vocábulo que serve pra tudo, menos para explicar algum fenômeno sociológico. Trabalha-se intensamente para aumentar e incentivar o ódio de classe, a intolerância contra os diferentes do sistema, as redes sociais estão cheias de ódios de todo tipo, não se estimula a reflexão e o pensamento, pelo contrário. Atualmente, a novidade é o ataque à política de cotas para negros, tanto na universidade como no serviço público, nas redes sociais existem um série de grupos que atacam constantemente aqueles a quem chamam pejorativamente de COTISTAS. E atacam não apenas aqueles que acabaram de entrar na universidade através dessa política, mas também não perdoam nem um pouco aqueles que já se formaram e já ingressaram no mercado de trabalho através daquele instrumento, ou seja a política governamental de cotas para os afro-descendentes. Eles não toleram que os descendentes dos antigos escravos tenham algum destaque profissional e tenham a emergência obtida por seus próprios méritos, através da dedicação aos estudos, eles consideram tudo isso ilegítimo e imoral, tudo fruto dessa maldita política de cotas para negros desse maldito governo, segundo eles. Nos movimentos de rua em junho de 2013 ficou claro a rejeição dos militantes naquela ocasião contra os políticos de todo naipe, que havia uma sensível crise de representação de todos os políticos e de todos os partidos existentes. A atual estratégia da oposição, pesando a mão como estão fazendo contra o governo central, não sei se não é uma estratégia um tanto suicida, porque as coisas acabam por aparecer, se mostrar de alguma forma para a população, se tornar transparente. E aí não será tudo isso uma estratégia um tanto quanto suicida?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Algumas razões sobre o nosso déficit de cidadania


Estudando a história recente do Brasil, verificamos que toda vez que surge um político, que ousa ampliar e estender a cidadania para os mais pobres, esse político é extremamente atacado e satanizado pelas elites políticas e econômicas, quando não destituído do poder como foi o caso de João Goulart. Porque teoricamente segundo a Constituição de 1988, todos os brasileiros natos teriam cidadania, mas na prática não é isso que acontece, porque infelizmente alguns ainda se consideram mais iguais do que outros, ou seja, tem mais direitos à cidadania do que o restante. São os privilegiados e bem nascidos. Reflexo de uma sociedade patrimonialista, segundo o historiador Raimundo Faoro, em seu "Os donos do Poder". Que mostra em sua obra, que todo o aparelho de estado deve estar à serviço de, preservar prioritariamente o valor máximo, ou seja, a manutenção da ordem e a defesa do patrimônio privado. Mudam-se os séculos e a ideologia política permanece, como se um defeito físico fosse, não vemos perspectivas de mudar essa mentalidade tacanha. Foi assim com o velho Getúlio Vargas em 1954, que acabou cometendo suicídio, tal foi a pressão exercida contra ele, pelas elites conservadoras e reacionárias. Foi assim com João Goulart, o Jango, que acabou caindo com o golpe militar em 1964, golpe apoiado por toda uma classe média tradicional, a chamada pequena burguesia, segundo Marx, que não queria reforma alguma, quanto mais uma revolução. Uma ditadura implantou-se no país com extremo autoritarismo, capitaneada pelas forças armadas e com apoio inicial das elites econômicas, que durou eternos 21 anos.

E foi assim também com Lula, o mesmo modus operandi, que desde que foi eleito em 2002, e mesmo depois que acabou o seu mandato, sofre todo o tipo de preconceito e ataques. Por sua origem humilde, nascido no meio pobre do nordeste brasileiro, semelhante a origem da maioria do povo brasileiro. Como o Brasil nos primórdios da televisão, não conseguiu articular uma tevê estatal forte, tipo a BBC inglesa, uma tevê pública de qualidade e não atrelada a governos. A mídia privada nacional, hegemônica, monopolista e oligárquica, não reflete, de forma alguma, a sociedade brasileira em seu aspecto quantitativo, reflete pelo contrário, o ideário de uma minoria de abonados e privilegiados. Reflete os setores que têm e exercem influência política, ideológica e de valores. Uma parte da pequena burguesia e em sua cúpula uma certa elite econômica, que pode pagar a conta dos financiamentos e pagar pela publicidade paga ou não. A mentalidade preponderante entre eles, do ponto de vista político, é de uma burrice colossal, é quase um tiro no pé. Pois uma sociedade tão desigual, como a nossa, que apresenta tantos desequilíbrios, sem políticas públicas adequadas, que atenue em parte os graves problemas, só consegue criar mais desequilíbrio, e ampliar os chamados bolsões de pobreza e exclusão. E em consequência disso, colher MAIS VIOLÊNCIA, com os assassinatos que ocorrem no país, perto de 56 mil homicídios por ano, sem falar nas balas perdidas, sequestros relâmpagos, latrocínios, assaltos, roubos e furtos, etc. Uma pena, lamentável, quando tudo isso vai diminuir ou acabar? Pelo visto nem tão cedo, porque vimos como os eleitores do estado mais rico da federação deram o seu voto mais uma vez em Alckmin de São Paulo, o elegendo ainda no primeiro turno, esquecendo de todas as chacinas e matanças autorizadas pelo governador. Infelizmente não querem mudar nada, escolheram radicalizar ainda mais agora, que a direita perdeu a vergonha de mostrar a cara, e assume como pauta principal um mercadismo quase absoluto, o que só leva a mais conservadorismo, e o apoio a candidatos, da mesma linhagem política, que cada vez mais alimentam e se retro alimentam desse mesmo tipo de mentalidade. Essa é a narrativa doutrinária agora dominante em nosso país, que alimenta essa ideologia política em cadeia, cada vez mais anti povo e anti popular. A impressão que dá, é que nem parece, que teve em 2008 nos EUA, uma tremenda crise do capitalismo financeiro. Eles não alteram os paradigmas, continuam fazendo reverências ao chamado deus mercado.


Não precisa fazer nada para melhorar a vida dos mais pobres, o mercado se encarregará deles, e tudo será, segundo os próprios, um mar de rosas. Tudo isso não quer dizer, que essa situação histórica e conjuntural ao mesmo tempo, não possa vir a mudar em algum momento, já que novas gerações estão chegando a vida adulta e entrando no mercado competitivo. Haverá uma hora, que irão se ocupar com o descalabro social, a injustiça social e econômica, do qual não estamos jamais imunes, por mais seguro que seja o condomínio privado.





quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Assistindo Rafael Saar


Os filmes de curta metragem de Rafael Saar sobre cantores e cantoras da mpb, entre eles Maria Alcina, Nei Matogrosso, Luhli e Lucinha, Baby do Brasil e sobretudo os de Luís Capucho, me ajudaram a despertar para o verdadeiro sentido da arte de viver e fazer coisas como arte, e a vida do dia a dia das gentes de todas as horas, o cotidiano ordinário de todo mundo. Em que medida existe uma diferença aí, entre essas duas formas de viver a vida? Será que todo mundo poderia se arriscar mais, ao se lançar mais para a vida na busca de fazer coisas?  Evitar se podar muito, procurando escapar dos barreiramentos sociais condicionantes, que a gente mesmo se impõe. Qual a especificidade desse fazer, que o distingue da vida corriqueira que todos nós levamos todos os dias e todas as horas. Por que alguns conseguem transcender essa fronteira e chegam a fazer algo que chamam de arte? É como se existisse algo em nós, que trava essa passagem de patamar, de plano, para outra dimensão do humano, onde possamos viver sem sentir tanta culpa ou medo, e aí ficam mais fáceis as coisas da vida fluírem, nos sentimentos, destrava-se o pensamento, e aí o caminho está inexoravelmente aberto, não para sempre nem eterno, porque somos um animalzinho, e a qualquer hora poderá haver um retrancamento e retrocesso daquele processo todo. É o caso daquela bexiga de encher, ela pulsa, há um movimento de contração e de expansão constante, quando qualquer coisa não anda bem, altera esse movimento, e ela, a bexiga, tensiona demais ou relaxa demais. Quando conseguimos figurativamente pular metaforicamente aquele muro da existência, e nadamos nas águas de um fazer natural e espontâneo, e conseguimos respirar de forma mais natural e sem tensão, todos os nossos poderes que vem lá dos nossos mais recônditos níveis interiores, em registros ainda por ser decodificados, vem à tona de forma tranquila, e aí, e só aí nesse caso, conseguimos realizar um fazer mais próximo possível daquilo que se poderia chamar de arte, uma arte ainda sem a técnica e o talento individual de cada um a ser trabalhado, mas a postura agora já é outra. Portanto é mais ou menos por aí, por essa trilha, que estamos tentando prolongar ou encurtar essa fronteira, percorrê-la, ultrapassá-la e ver a vida vivendo e também querendo viver e, infelizmente, sem conseguir, barreirada por imensas dificuldades e sem conseguir enxergar que a vida é naturalidade, é simplesmente um botar pra fora, um exprimir-se. Quando estamos travados com alguma coisa desconhecida, algo nos impedindo de viver a vida simplesmente fica muito comprometido esse fluir.